«O Segredo de António Dias Lourenço» no Museu Resistência e Liberdade

O Museu Nacional Resistência e Liberdade, em Peniche, inaugurou, quinta-feira, a exposição «O Segredo de António Dias Lourenço», assinalando o 70.º aniversário de uma das mais audaciosas, espectaculares e perigosas fugas das cadeias fascistas.

«Dias Lourenço deu provas de uma coragem sem limites»

 

O feito aconteceu em 17 de Dezembro de 1954, data em que António Dias Lourenço (1915-2010) escapou da cela disciplinar do Forte de Peniche, situada no Fortim Redondo, tendo inspirado os filmes «A Fuga» e «O Segredo».

Na sessão que antecedeu a inauguração da primeira exposição temporária do Museu [que pode ser vista pelo menos até 25 de Março],onde estiveram mais de uma centena de pessoas,entre as quais Maria da Paz, neta do homenageado, Manuel Rodrigues, da Comissão Política do Comité Central do PCP e director do Jornal Avante!, considerou aquela fuga como «a mais audaciosa e corajosa fuga individual das que tiveram lugar a partir das cadeias fascistas». «Dias Lourenço deu provas de uma coragem sem limites, serenidade perante uma situação extremamente perigosa, capacidade de mobilizar energias para ultrapassar tão dura prova, enorme disposição de arriscar a própria vida para retomar o seu posto de combate e servir o Partido», destacou o dirigente comunista. «Uma vez alcançada a liberdade, retoma a actividade clandestina, pondo em evidência a sua têmpera de revolucionário comunista que entendia a vida como uma luta constante contra o fascismo, por um Portugal democrático, livre da exploração do homem pelo homem», acrescentou.

Preso por «usar a razão»
Alexandre Nobre Pais, presidente da empresa pública Museus e Monumentos de Portugal (MMP), recordou, por seu lado,que aquela fuga foi «feita mar de inverno a dentro, numa fortaleza onde estava preso precisamente por pensar, ou seja, usar a razão», pondo «a sua vida ao serviço de um País que parecia estar todo ele imerso sobre um “fumo negro das fábricas”», como Dias Lourenço escreveu num dos seus poemas.

O presidente da MMP disse ainda que Dias Lourenço é «quase equiparável a uma personagem de ficção» como Edmond Dantès, no Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, ou Papillon, de Henri Charrière. Na fuga provou arrojadamente, e na pior das situações, «o sal do mar», que «terá inspirado Shakespeare na tragédia “Rei Lear”, texto magnificamente traduzido por Álvaro Cunhal na década de 50 [do século passado], durante um dos períodos da sua prisão», acrescentou.

«Operário intelectual»
O professor Luís Farinha, investigador do Instituto de História Contemporânea, falou sobre o homem «afável, inteligente e muito corajoso» que foi Dias Lourenço, que também se destacou por ser um «operário intelectual». Considerou-o, por isso, um «teórico», «organizador» e «resistente», com uma «enorme capacidade teórica para encarar a realidade, estabelecer e desenvolver ideias sobre o futuro».

 

Tornou-se militante do PCP em 1931

António Dias Lourenço nasceu a 25 de Março de 1915, em Vila Franca de Xira, no ambiente operário das fábricas do baixo Ribatejo que o início do século XX vira surgir, no processo de industrialização então em curso – a fábrica Cimentos do Tejo, as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, a Soda Póvoa, entre tantas outras.

«O ambiente das fábricas, o contacto com a classe operária e as suas lutas, o ambiente das colectividades onde desenvolveu uma intensa actividade cultural, a consciência de classe que cedo adquire perante a exploração capitalista, levam-no à luta dos trabalhadores e ao PCP, de que se tornaria militante em 1931», recordou Manuel Rodrigues, frisando que Dias Lourenço «tornou-se, portanto, comunista na época em que a ofensiva fascista contra os trabalhadores e o PCP já estava em marcha». «Mas era igualmente a época em que homens e mulheres abnegadas e corajosamente erguiam a organização clandestina do PCP para dar combate ao fascismo», destacou.

# Participou activamente na jornada de 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos;

# Em 1942, com 27 anos de idade, tornou-se funcionário do Partido, ano em que

passou à clandestinidade e assumiu responsabilidade por tipografias e pelo aparelho central de distribuição da imprensa do Partido;

# Teve participação activa na reorganização do PCP dos anos 40/41;

# Na qualidade de militante e destacado dirigente do PCP na clandestinidade, integrou os organismos dirigentes das greves de Julho-Agosto de 1943 e de 8 e 9 de Maio de 1944;

# Foi responsável pela organização e direcção das greves da construção naval, em 1947; # Esteve ligado às greves de 1957/1958, ao 1.º de Maio de 1962 e à luta pelas 8 horas de trabalho nos campos;

# Foi responsável pel’ O Camponês em 1949, pelo Avante! de 1957 a 1962 e primeiro director do Avante! Legal, de 1974 a 1991;

# Teve papel importante na organização dos chamados «Passeios do Tejo», nos anos 40/41.

 

Merecida homenagem

Após a fuga, António Dias Lourenço fez parte da organização do Partido que, no exterior do Forte de Peniche, preparou a fuja de Janeiro de 1960 e integrou o núcleo de dirigentes do PCP que organizou a saída clandestina de Portugal de Agostinho Neto, no quadro da solidariedade do Partido aos movimentos de libertação nacional das ex-colónias portuguesas e no combate à guerra colonial. Foi preso de novo em Junho de 1962. Ao todo, passou 17 anos nas prisões do fascismo.

Quando se deu o levantamento militar e popular do 25 de Abril, Dias Lourenço encontrava-se na cadeia do Hospital-Prisão de Caxias. Libertado no dia 26 de Abril [de 1974], imediatamente passa a integrar o trabalho de direcção do Partido nas novas condições de liberdade e democracia, como membro do Comité Central.

«Depois do 25 de Abril e até à sua morte, a 7 de Agosto de 2010, continuou a desempenhar importantes tarefas e responsabilidades na direcção do PCP, em que se destacou o seu papel como director do Avante! legal, durante 17 anos», destacou o membro da Comissão Política.

«A afirmação perante o tribunal fascista de que esperava manter até ao último alento de vida a condição de militante comunista, e que não concebia outra vida que não fosse dar tudo ao seu Partido e aos seus ideais, foi inteiramente cumprida», concluiu Manuel Rodrigues.

«Não há como não ficar impressionado com um exemplo de vida destes», destacou Aida Rechena, directora do Museu, revelando que a «intenção inicial» da exposição«era comemorar e apresentar apenas a fuga, mas logo percebemos que não podia ser só isso, apesar de a fuga já ser muito».

Como explicou, a mostra está construída a partir de uma cronologia de vida, uma fita de tempo, com entradas de informação, acompanhada por imagens, documentos e citaçõesde António Dias Lourenço, enquadrados pelos textos do professor Luís Farinha e de Domingos Abrantes, que ali estava acompanhado por Conceição Matos, sua companheira e, também, antiga prisioneira política.

 



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