A hidra

Jorge Cadima

Os ata­ques na Síria têm li­ga­ções não to­tal­mente es­cla­re­cidos

O im­pe­ri­a­lismo es­palha o caos e a guerra. Ex­plodiu de novo a guerra na Síria. Os acon­te­ci­mentos evo­luem ra­pi­da­mente. Mas o fun­da­mental está já claro.

Is­rael aceitou um “cessar-fogo” com o go­verno li­banês, pa­tro­ci­nado por EUA e França porque, apesar do mas­sacre de civis, foi in­capaz de avançar no ter­reno. Mas é apenas uma ma­nobra di­la­tória. O ex-em­bai­xador bri­tâ­nico Craig Murray (craig­murray.org.uk, 30.11.24) diz: «Is­rael passou 72 horas a vi­olar fla­gran­te­mente o cessar-fogo sem uma pa­lavra de pro­testo das po­tên­cias oci­den­tais. Logo que al­guém ri­postar com um único tiro, os EUA e seus sa­té­lites dir-se-ão es­can­da­li­zados, re­co­me­çarão os fe­rozes bom­bar­de­a­mentos sobre Bei­rute e Is­rael avan­çará». O cessar-fogo também serviu para outra coisa: logo após ser as­si­nado, foi lan­çado o ataque contra a Síria. Um ataque com bom­bar­de­a­mentos is­ra­e­litas, uma enorme cam­panha de de­sin­for­mação me­diá­tica, li­ga­ções e apoios re­gi­o­nais ainda não to­tal­mente es­cla­re­cidos e gan­gues ter­ro­ristas fun­da­men­ta­listas como tropa de choque.

Convém re­cordar quem são esses bandos: mu­daram de nome (Al Nusra, HTS), mas têm origem na Al-Qaeda e ISIS (Es­tado Is­lâ­mico). São os que há anos es­pa­lham o terror com o apoio “oci­dental”. São os que co­meram em pú­blico o co­ração de sol­dados, ba­na­li­zado pela BBC como “ca­ni­ba­lismo ri­tual” (BBC, 5.7.13). São os que cor­taram a ca­beça a uma cri­ança de 12 anos e or­gu­lho­sa­mente fil­maram o acto e co­lo­caram na In­ternet (BBC, 21.7.16). São os que Is­rael tratou no seu hos­pital de cam­panha nos Montes Golãs sí­rios ocu­pados (ynet­news.com, 18.2.14), vi­si­tados pes­so­al­mente por Ne­tanyahu (www.you­tube.com/​watch?v=9vkksq­tOTvs) que afirmou ser uma acção hu­ma­ni­tária de Is­rael (como se “Is­rael” e “hu­ma­ni­tário” cou­bessem numa mesma frase). São os que «nunca atacam Is­rael, porque são pa­tro­ci­nados por Is­rael e a CIA», como diz o ex-em­bai­xador Murray (x.com/​sahou­raxo/​status/​1862938100936155610). E sobre quem o ac­tual Con­se­lheiro de Se­gu­rança Na­ci­onal de Biden, Jake Sul­livan, es­creveu num e-mail para a então MNE Hil­lary Clinton em 2012: «A AQ [Al Qaeda] está do nosso lado na Síria» (wi­ki­leaks.org/​clinton-emails/​emailid/​23225). O ex-Mi­nistro dos Ne­gó­cios Es­tran­geiros in­glês, Robin Cook es­creveu (Guar­dian, 8.7.05): «Al-Qaida, li­te­ral­mente “a base de dados”, foi na sua origem o fi­cheiro de com­pu­tador com os mi­lhares de mu­jahe­dines re­cru­tados e trei­nados com a ajuda da CIA para der­rotar os russos» [no Afe­ga­nistão dos anos 80].

O que se passa? Is­rael pro­cura cortar o apoio de Irão e Síria ao Hez­bolá e aos grupos pa­les­ti­ni­anos que re­sistem ao ge­no­cídio is­ra­e­lita. Mas visa mais longe: pre­para o ataque ao Irão, para tentar des­truir todo o Eixo da Re­sis­tência. Tem o apoio das grandes po­tên­cias im­pe­ri­a­listas e da má­quina me­diá­tica ao seu ser­viço.

A hidra mons­truosa do im­pe­ri­a­lismo tem muitas ca­beças, in­cluindo a CIA, a NATO, os nazis ucra­ni­anos, os ter­ro­ristas fun­da­men­ta­listas, a UE (que tenta re­e­ditar na Geórgia o golpe de 2014 na Ucrânia). Mas tem um centro de co­mando único: o grande ca­pital fi­nan­ceiro trans­na­ci­onal. Como mos­tram a His­tória, 14 meses em Gaza e 10 anos na Ucrânia, esta hidra im­pe­ri­a­lista ali­menta-se do sangue das suas ví­timas. Mas está de­ses­pe­rada.

Uma dú­vida final. Em 11 de Se­tembro de 2001, Nova Iorque foi ví­tima dos aten­tados. A versão ofi­cial dos EUA é que foi obra da Al-Qaeda. Mas se a Al-Qaeda está ao seu ser­viço, o que re­al­mente se passou na­quele dia?

 



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