Serão precisos comentários?
Uma história em dois tempos:
Tempo 1. Diz um estudo dos EUA: os motores diesel emitem uma mistura complexa de poluentes do ar, incluindo tanto material gasoso como sólido. É designada DPM (diesel particulate matter, partículas de matéria diesel). Estas partículas, da dimensão de menos de 1 µm, estão associadas a efeitos adversos no ambiente e na saúde humana (problemas cardiovasculares e respiratórios, mortes prematuras). Na Califórnia, o problema acentua-se, por motores potentes como os das locomotivas operarem em particular “próximo de centrais ferroviárias, portos de mar e instalações industriais, onde por vezes habitam comunidades de baixos rendimentos, daí resultando um fardo ambiental agravado para essas populações”.
O Departamento de Recursos do Ar da Califórnia (CARB na sigla em inglês) promulga em 2023 um regulamento visando a retirada de “velhas e sujas locomotivas diesel”. Bane locomotivas com mais de 23 anos, e indica que até 2030 deverão entrar ao serviço locomotivas de “zero emissões”. Cerca de metade das locomotivas ao serviço têm perto de 50 anos.
Tempo 2. O secretário de Estado Anthony Blinken foi na semana passada ao Peru fazer uma generosa oferta. Os EUA apoiam a cidade de Lima na construção de uma nova linha ferroviária suburbana que virá a transportar diariamente 200.000 peruanos. No seu floreado discurso, refere que o sistema ferroviário Caltrain, da Califórnia, “contribuirá com mais de uma centena de carruagens e locomotivas de alta qualidade”. A que vem essa empresa? Um jornal dos EUA explica: “A Caltrain encontra um cliente internacional para a frota diesel que vai retirar”. Como está a electrificar a rede californiana, nada melhor do que vender a Lima carruagens e locomotivas diesel velhas de 40 anos. Por 6,32 milhões de dólares. Blinken é o seu caixeiro viajante.
São escusados comentários. A dominação dos EUA durará, entre outras coisas, enquanto outros países alinharem em coisas destas.