Espelho meu, espelho meu

João Frazão

Luís Montenegro (LM) foi a Braga mostrar a sua postura de estadista, cheio de prosápia como se não fosse primeiro-ministro por uma unha negra e porque o PS lhe entregou o poder no colo, e apresentou-se ao Congresso do PSD como o grande reformador (tanto que até levou pela mão, como grande novidade na sua equipa, uma senhora há muito reformada).

Animado por uma mobilização que mostra que ali cheira a poder, tachos e prebendas, LM aproximou-se do púlpito onde seria ovacionado, para dizer que quer reformar Portugal.

Antes porém, mirou-se em frente ao espelho, e perguntou: «Espelho meu, espelho meu, nestas terras que eu governo, há alguém que seja mais reaccionário que eu?»

«Não, meu senhor. Tu és o mais reaccionário», responde-lhe o espelho.

E, vai daí, dispara uma série de medidas, do reforço da videovigilância nas ruas, atentando contra o direito à privacidade, ao reforço das benesses aos grupos económicos, e ainda teve tempo para destilar aquele ódio que os mais reaccionários guardam lá no baú contra os direitos e liberdades a ser-se quem se é, à educação sexual e à igualdade, esse conceito que os faz tremer de aversão.

Alguns, percebendo o odor a bafio na conversa do cavalheiro, cedo se apressaram a justificar tais anúncios com a necessária resposta à reaccionarice do Chega, que anda por aí sempre com essas ladaínhas e outras de igual jaez.

A questão é que é difícil acreditar que alguém ache sinceramente que se combate as forças fascizantes concretizando aquilo que estas pregam, pelo que, em boa verdade, isso não passa de uma desculpa para PSD e CDS concretizarem os seus próprios projectos.

As pulsões securitárias estão no PSD desde sempre, como bem se lembram os que viveram a repressão violenta aos estudantes que protestavam contra as propinas ou aos utentes que recusavam o brutal aumento das portagens na ponte 25 de Abril. A intenção de dar cada vez mais benesses ao grande capital cortando no IRC dos mais ricos entre os ricos é tanto do PSD que serviu de base para o teatro da oposição que nunca o foi. O horror aos direitos da mulher foram bem expressos pelo Presidente do GP do CDS.

Que ninguém procure dividir o País em reaccionários do bem e reaccionários do mal.

Porque, no final da noite, ao contrário da história, o espelho continuará a dizer «Não há outros mais reaccionários do que tu». E seguem todos contentes o seu caminho, a que a acção popular há-de cortar o passo.

 



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