Tarefeiros de serviço

Manuel Rodrigues

O Orçamento do Estado (OE) para 2025 foi votado na sexta-feira passada e aprovado na generalidade. De olho nos interesses dos poderosos, PSD e CDS votaram a favor, o PS absteve-se para o viabilizar, enquanto o Chega e a IL simularam, no voto contra, divergências profundas, quando, na prática, o que ambicionavam era levar mais longe este instrumento político, para que os grupos económicos e financeiros, seus criadores, ficassem melhor servidos.

Aliás, é curioso, que no período de discussão, na generalidade, PSD, PS e Chega se tenham «pegado», acusando-se mutuamente de tarefeiros uns dos outros. PSD e Chega tomaram-se de razões e acusaram-se de serem tarefeiros do PS. E o PS lá se procurou defender, depois de ter anunciado que viabilizaria o OE, acusando o Governo de opacidade e falta de transparência, acrescentando que não confiava no executivo, que não passará cheques em branco na especialidade a uma «governação» entre a «neblina e a opacidade», acusando o governo de falta de transparência. Ou seja, o que o PS quis dizer é que viabilizaria um OE, apesar de dizer não conhecer as reais intenções do Governo..

Tudo resumido, mais palavra menos palavra, mais discurso menos discurso, foi a deputada do PCP, Paula Santos, que «pôs o dedo na ferida», confirmando que, nesta proposta orçamental, o Governo «confirma a sua natureza e diz com todas as letras quem serve e que interesses defende». Acrescentando: «não são os interesses dos trabalhadores nem do povo, nem do País. Está aqui para continuar a beneficiar aqueles que têm ganho com a política de direita, aprofundando desigualdades, injustiças e discriminações».

Tarefeiros são, de facto, todos, PS, PSD, CDS, Chega e IL. Tarefeiros com tarefas distintas, é certo, neste quadro com um OE talhado como um fato à medida dos interesses dos grupos económicos. Tarefeiros, à vez, nessa política, na política de direita, desenhada para engrossar os seus lucros com os muitos milhões da riqueza nacional que extorquem aos trabalhadores, que a produzem.

É assim mesmo a natureza do capital monopolista, em que procura ter sempre disponíveis os tarefeiros de que precisa para tentar levar ainda mais longe a exploração.

Mas não ficará de mãos livres para fazer o que quiser. Sejam quais forem os tarefeiros que ponha ao seu serviço, contará, inevitavelmente, com a luta organizada dos trabalhadores e do povo para lhes fazer frente, numa acção incessante, pelos salários e pelos direitos, por um outro OE, por uma outra política.

 



Mais artigos de: Opinião

Incêndios, prevenção e Protecção Civil

Lusa Esquecida que foi a grave situação vivida na Madeira, anunciava-se o maior número de operacionais e meios de sempre para enfrentar a chamada “época de incêndios”, com uma área ardida e número de ocorrências substancialmente...

EUA – eleições e crise do sistema

Quando estas linhas chegarem às mãos dos leitores já se terão realizado as eleições nos EUA. Quando as escrevemos não sabemos os resultados. Contudo, dado o objectivo deste artigo, isso não será o mais importante, uma vez que nos pretendemos concentrar no que está por detrás do degradante espectáculo político a que temos...

O fosso

As últimas semanas ficaram marcadas por uma série de acontecimentos na Área Metropolitana de Lisboa: a morte, num bairro da Amadora, de (mais) um cidadão às mãos da polícia; os protestos populares por “justiça e paz”; os episódios de violência; o debate político e mediático centrado nos apelos a mais “segurança” – que,...

Espelho meu, espelho meu

Luís Montenegro (LM) foi a Braga mostrar a sua postura de estadista, cheio de prosápia como se não fosse primeiro-ministro por uma unha negra e porque o PS lhe entregou o poder no colo, e apresentou-se ao Congresso do PSD como o grande reformador (tanto que até levou pela mão, como grande novidade na sua equipa, uma...

Uma vergonha de setinha

A abjecta “proposta” de despejar de casa quem tenha participado em “tumultos”, aprovada na Câmara de Loures com os votos do PS, do PSD e do Chega e o voto contra da CDU, mereceu setinha para cima no Expresso, com fotografia do presidente Ricardo Leão, nos termos que se transcrevem: «não será a forma mais rápida de...