Energicamente
«Estamos de olhos postos no futuro. Gastamos o essencial da nossa energia a olhar para a frente.» A afirmação é de Luís Montenegro, primeiro-ministro e presidente do PSD, e foi proferida no 42.º Congresso do partido, realizado em Braga este fim-de-semana, onde anunciou «novas decisões» para sete áreas da governação.
A insistência no futuro e no novo, de tão repetida, já não suscita grandes entusiasmos, mas continua a ser muito curiosa, sobretudo porque traduz, com peculiar frequência, o desejo de apagar o passado e ignorar o presente, como se não fossem o cimento e o aço do que virá a ser. Ao gastar as suas energias a olhar para a frente, Montenegro evita dar explicações e assumir responsabilidades sobre problemas actuais. Como é o caso, por exemplo, da pobreza em Portugal.
Catorze anos depois de ter brindado o País com a afirmação «a vida das pessoas não está melhor, mas a do País está muito melhor», no tempo em que Passos Coelho advogava que «só vamos sair desta situação [de crise] empobrecendo», Montenegro tirou da cartola seis medidas e uma provocação, que são uma cedência em toda a linha às pretensões da extrema-direita e do capital. Afinal, parece que as reuniões privadas com Ventura sobre o Orçamento do Estado sempre deram os seus frutos: da saúde à educação, da habitação à segurança, com ênfase nos sistemas de videovigilância e no reforço das polícias, sem esquecer um «grande projecto de reabilitação da Área Metropolitana de Lisboa», o Governo conjuga o futuro metendo para debaixo do tapete o aumento da pobreza e das desigualdades em Portugal, consequências de políticas anteriores a que o PS também não é alheio. Os dados são da Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e mostram que não só há mais pobres, sobretudo entre as crianças e os jovens, os desempregados e as famílias monoparentais, como os mais pobres ficaram ainda mais pobres. Portugal é hoje o quarto país mais desigual da União Europeia, e ter um emprego não significa escapar à pobreza: um em cada 10 trabalhadores é pobre.
O primeiro-ministro não anunciou uma única medida para combater o flagelo, mas fazendo jus à vertente provocadora que vem ostentando, anunciou a alteração do programa da disciplina de cidadania, o que galvanizou os congressistas. No futuro próximo, o PS abstém-se, a extrema-direita aplaude e o capital rejubila… energicamente.