Como desviar recursos da RTP para os canais privados de TV

Vasco Cardoso

Luís Montenegro escolheu uma conferência promovida pela designada Plataforma de Media Privados para confirmar aquilo que já há uns dias se sussurrava: a RTP deixará de ter publicidade, ou dito de outra forma, os mais de 20 milhões de euros de receitas que a RTP obtém anualmente por essa via passarão a ser entregues à SIC, à TVI, à CMTV e por aí fora. Pelo caminho, o Governo, numa atitude de requintado cinismo, ainda se atreve a dizer que esse espaço – ocupado pelos anúncios – será substituído por conteúdos culturais e, para sossegar as almas, não haverá aumento no valor da contribuição para o audiovisual.

O caso do grupo RTP, que agrega vários canais de televisão e rádio – RTP1, RTP2, RTP3, RTP Açores, RTP Madeira, RTP internacional, RTP África, RTP Memória, Antena 1, Antena 2, Antena 3, RDP África, etc. – arquivo histórico, delegações regionais, delegações internacionais, plataformas online, é o de uma importante empresa que presta um serviço público que nenhum grupo económico privado quer, ou estaria em condições de cumprir, e cujo conteúdo vai desde a informação ao desporto, passando pelo entretenimento e pela promoção da língua, da música e da cultura portuguesa e em português. Proibir a RTP de recorrer a receitas de publicidade – culminando crescentes limitações que ao longo dos anos foram sendo impostas – condicionará todo o serviço público. Foi esta a resposta à chamada “crise dos média” que o Governo decidiu dar: degradar ainda mais o serviço público e dar um bónus aos canais privados de televisão.

Já dissemos mil vezes que um dos principais problemas que atingiram as empresas públicas ao longo de décadas foi o facto de muitas delas terem sido propositadamente degradadas, subfinanciadas, limitadas na sua gestão para facilitar a sua privatização ou, mesmo, liquidação. A RTP não tem sido poupada a este padrão (seja com governos do PS ou do PSD/CDS), incluindo nas suas opções editoriais que, em não poucos casos, se aproximam dos critérios de gestão privada e se integram na grelha de difusão do pensamento único que querem impor.

E não temos dúvidas de que, como mandam as regras, esta prenda que o Governo decidiu dar aos canais privados de televisão será devidamente reconhecida e retribuída pelos próprios.

 



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