Siameses
É por vezes difícil distinguir as opções governativas de PS e PSD. Acontece frequentemente que, com o passar do tempo, já nem nos lembramos bem de quem fez o quê. Que partido estava no governo quando foi privatizada a banca? Quem abriu a porta aos privados na Saúde? Foi o PS ou o PSD quem aceitou – e tantas vezes levou até mais além – todas as imposições da União Europeia, lesivas da soberania e da produção nacionais? Quem desferiu o primeiro golpe na legislação laboral? E todos os que se seguiram?… Um ou outro, seguramente; talvez os dois. Sempre com o apoio do CDS e, mais recentemente, de IL e Chega.
O que é certo é que poucas vezes alguma medida estratégica assumida por um tenha deixado de ser prosseguida pelo outro…
Mas se há área em que PS e PSD são efectivamente gémeos siameses é na política externa. Independente do que cada um possa dizer em discursos ou inscrever em programas, a prática é a mesma: os compromissos internacionais – entenda-se, a submissão aos EUA, à NATO e à UE – falam sempre mais alto do que qualquer princípio, mesmo que constitucional.
A situação no Médio Oriente é, a este respeito, reveladora. No dia 1, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) publicou na rede social X uma nota a «condenar liminarmente» os ataques do Irão a Israel. Já a invasão e o bombardeamento sistemático do Líbano (até segunda-feira, o saldo era superior a 2000 mortos, mais de 120 dos quais eram crianças, e para cima de um milhão de deslocados) não mereceu qualquer publicação – e muito menos condenação. Questionado sobre o ocorrido, o ministro Paulo Rangel limitou-se a referir a sua preocupação pela «situação extremamente perigosa» que se vive na região, não sem reafirmar uma vez mais o que chama de «direito de Israel a defender-se» (a crítica aos “exageros” das tropas sionistas daria para rir, não fosse trágico o assunto).
E nem a decisão do governo israelita de considerar o Secretário-Geral das Nações Unidas, o português António Guterres, persona non grata, mereceu do MNE mais do que um «lamento».
Nada de muito diferente se passou durante os governos do PS. Em 2019, era ministro Augusto Santos Silva, Portugal aceitou acolher o encontro entre Benjamin Netanyahu e Mike Pompeo, à data Secretário de Estado dos EUA, do qual saiu a intensificação da ocupação da Palestina e o agravamento das provocações contra o Irão.
A unir Santos Silva e Rangel – ou melhor, PS e PSD – esteve também o reconhecimento de Juan Guaidó como “presidente” da Venezuela, para permitir o saque das imensas riquezas desse país pelo imperialismo.
E podemos recuar: às guerras contra o Iraque, o Afeganistão e a Jugoslávia. Com PS ou PSD no Governo, Portugal não tem uma política externa própria. E isso é grave – e vergonhoso.