Rentrée?

Gustavo Carneiro

É já amanhã que abrem as portas da Festa do Avante!. Dela, como habitualmente, pouco se tem falado na comunicação social, apesar da diversidade (e excelência) da sua programação.

Não há, em Portugal – para não ir mais longe – outro evento que combine música clássica e hip-hop, fado e jazz, rock e música electrónica, blues e sonoridades populares portuguesas e que, ao mesmo tempo, tenha teatro e cinema, desporto e gastronomia, livros e discos, artes plásticas e ciência, escorregas, contos e jogos de água para as crianças, solidariedade internacionalista, debates e evocações (de Luís de Camões, Carlos Paredes, Amílcar Cabral)… Já os bem menos ecléticos festivais comerciais, cujo nome próprio é sempre o de um grupo económico – MEO isto, Vodafone aquilo, EDP aqueloutro –, têm sempre garantidas horas de emissão, transmissões em directo, enviados especiais.

É que a Festa, dizem, é política, e assim deve ser tratada – como uma qualquer festa do Pontal, «universidade de Verão», «fórum» ou «academia» –, passando-se por cima da sua dimensão, dos valores que lhe são intrínsecos e, também, do modo singular como é planificada, erguida, divulgada e mantida em funcionamento: com militância dedicada, apaixonada, revolucionária. Cada partido tem a sua “rentrée” e, concluem, a dos comunistas é a Festa do Avante!.

Mas o próprio termo “rentrée” está errado. Só no mês de Agosto – e para além das múltiplas tarefas quotidianas relacionadas com a preparação da Festa – os comunistas estiveram, como sempre estão, na primeira linha da luta, a organizar, mobilizar e apoiar: em frente a uma loja Aldi, em Coimbra, pelo direito à acção sindical; com enfermeiros junto ao Hospital Distrital Dr. José Maria Grande, em Portalegre, e ao Instituto Português de Oncologia, no Porto, pela valorização das carreiras e a melhoria das condições de trabalho; ainda no Porto, com os técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica da Unidade Local de Saúde Santo António, em greve pelo reposicionamento remuneratório e a correcção de injustiças; no Hospital Universitário de Coimbra, onde os trabalhadores das cantinas reclamavam do SUCH melhores salários, o mesmo que se exigiu na EasyJet, na Menzies e na concentração de corticeiros; na STCP, durante a greve em defesa do serviço público de transporte na Área Metropolitana do Porto e na ERSUC, que assegura a limpeza urbana em Coimbra, pela atribuição e regulamentação do subsídio de penosidade, insalubridade e risco; com os viticultores do Douro, que exigem melhores condições para produzir; com os utentes e profissionais de Saúde, em defesa do SNS, entre muitas outras...

A luta – como a exploração – não pára e não vai de férias. Logo, não reentra. E a Festa faz parte dessa luta – uma e outra, sempre, com uma imensa alegria.

 



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