Países do Sahel reforçam soberania
Os chefes de Estado do Níger, Mali e Burkina Faso reuniram-se em Niamey, na primeira cimeira da Aliança dos Estados do Sahel (AES), organização criada em finais de 2023 pelos três países após terem abandonado a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), acusando-a de ser manipulada pela França e de se ter «convertido numa ameaça para os seus Estados membros e as suas populações».
Os líderes desses Estados, o general Abdourahmane Tiani (Níger), o coronel Assimi Goita (Mali) e o capitão Ibrahim Traoré (Burkina Faso), reafirmaram a vigência do pacto de assistência mútua e defesa colectiva e a vontade de reforçar a cooperação económica trilateral. Reiteraram os propósitos de construir uma «comunidade longe do domínio de potências estrangeiras» e de trabalhar pelo desenvolvimento económico dos respectivos países, valorizando os valiosos recursos de que dispõem. Reivindicaram o direito de estabelecer relações de cooperação com outros Estados, tal como as que já mantêm com a China, a Rússia, o Irão ou a Turquia. E acusaram uma vez mais a Cedeao de não estar a fazer o suficiente para combater de forma eficaz o terrorismo no Sahel.
A Cedeao – que ameaçou intervir militarmente no Níger para repor no poder o deposto presidente Mohamed Bazoum, aliado indefectível de Paris, derrubado em Julho do ano passado pelas forças armadas nigerinas, e impôs então sanções económicas contra os três países – reuniu-se em Abuja, capital da Nigéria, no dia seguinte à cimeira da AES. Reelegeu como presidente rotativo da organização o chefe do Estado da Nigéria, Bola Tinubu, e revelou que os presidentes do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, e do Togo, Faure Gnassingbé, foram nomeados «enviados especiais» ao Burkina Faso, Mali e Níger, o que deixa antever esforços diplomáticos da Cedeao para tentar «normalizar» as relações com os Estados «rebeldes» que decidiram trilhar o caminho da dignidade. «Normalização» que, nas circunstâncias actuais, afigura-se improvável.
O Níger, que à semelhança do Mali e do Burkina ordenou a saída das tropas francesas e norte-americanas estacionadas no país a pretexto da luta contra o terrorismo, confirmou que os Estados Unidos da América vão retirar todas as forças do território nigerino até finais de Agosto, após Niamey ter posto termo à cooperação militar com Washington. Os norte-americanos operavam a partir de uma «pequena» base aérea na capital e, sobretudo, de uma «grande» base que construíram há meia dúzia de anos, em Agadez, investindo ali 100 milhões de dólares, que era um dos principais centros das operações dos EUA em toda zona do Sahel.
Também a Alemanha vai abandonar, nas próximas semanas, a sua base aérea no Níger, que utiliza desde 2013 como plataforma de transporte militar. A ruptura das conversações entre Berlim e Niamey ocorreu quando as autoridades nigerinas se recusaram a conceder imunidade judicial aos soldados expedicionários alemães.
Estas e outras notícias que chegam da África Ocidental confirmam que, também ali, as forças progressistas se insurgem, cada vez mais, contra a exploração estrangeira, e lutam contra a dominação neocolonial, procurando reforçar a soberania dos seus países e construir a paz e o desenvolvimento, no interesse dos seus povos.