A frente suicida contra Trump

António Santos

Há uma tendência que se aprofunda um pouco por todo o mundo: para evitar a vitória eleitoral do fascismo, são formadas grandes frentes eleitorais sob um único programa, bandeira e consigna: «seremos tudo, mas não somos o fascista!». Invariavelmente, são quem lhe abre a porta.

Os EUA não são excepção. Há quatro anos, Biden e o Partido Democrata sugaram todas as energias sociais da classe trabalhadora estado-unidense, dos sindicatos aos partidos políticos à esquerda, numa chantagem fatal: se não apoiassem Biden seriam cúmplices de um segundo mandato de Trump, que destruiria os direitos democráticos que restam, instituiria o racismo e a xenofobia na lei, reduziria a escombros os direitos das mulheres e arrasaria o que sobra das funções sociais do Estado federal. Devemo-nos indagar se funcionou realmente. Passados quatro anos, é cada vez mais improvável que a classe trabalhadora estado-unidense tenha vontade de evitar Trump a qualquer custo, mesmo que esse custo seja deixar tudo como está, empobrecer ou lançar o mundo na III Guerra Mundial,

Estes frentismos liberais negativos têm um condão suicida, autofágico e incorrigivelmente degenerativo. O Partido Democrata sabe-o e procura eliminar Trump judicialmente porque não quis eliminar as causas sociais, económicas e políticas que alimentam o monstro. Biden abriu a porta a Trump. O frentismo liberal, mais ou menos social-democrata, escancara a porta ao fascismo e deixa os aliados desarmados, socialmente isolados e politicamente desesperados, porque a cada nova grande coligação frentista há menos argumentos que valham para convencer as massas a repetir a dose: só lhes sobra repetir à classe traída que «ao menos não somos o fascista».

O aparente falhanço da guerra judicial contra Trump deve ser lido como o reflexo institucional do desgaste social desta táctica. A condenação de Trump, no final de Maio, por um processo politicamente inócuo relacionado com pagamentos a uma prostituta, é a única sentença que Trump conhecerá antes das eleições. Os restantes três processos, mais graves, relacionados com o ataque ao Capitólio, a tentativa de anulação dos resultados eleitorais da Geórgia e ao desvio de documentos secretos, parecem atascados em recursos, escândalos de corrupção judicial e infinitos erros processuais.

O frentismo democrata contra Trump insiste na ideia de que qualquer coisa, incluindo Biden, é melhor que Trump e que qualquer forma de travar Trump é uma boa forma de travar Trump, incluindo ardis tecnocratas, judicialistas e antidemocráticos. Na verdade, esse é o principal sustento político de Trump: a impopularidade de Biden, que é e continuará a ser impopular porque não dá resposta aos problemas dos trabalhadores, e a vitimização de Trump. Nos EUA, como no resto do mundo, a classe trabalhadora não está condenada pelo destino a ter de escolher eternamente entre um Trump ou um Biden e deve prezar, acima de qualquer chantagem, a independência de classe das suas organizações.

 



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