CDU denuncia em Évora que a precariedade mata a ciência
O Secretário-Geral do PCP visitou na quinta-feira, 16, o laboratório HÉRCULES, único em Portugal, e conversou com docentes e investigadores da Universidade de Évora (UE), muitos vítimas de trabalho precário.
O PCP não desiste dos investigadores e da ciência e tecnologia
O laboratório HÉRCULES, criado em 2009, é uma infra-estrutura de investigação da UE, dedicada ao estudo e valorização do património cultural, com especial ênfase na integração de metodologias das ciências físicas e dos materiais em abordagens interdisciplinares. O equipamento compreende vários laboratórios com equipamentos de ponta com capacidade de desenvolver investigação inovadora que compreende a análise in situ não destrutiva, microanálise, análise química de alta resolução e desenvolvimento de materiais e produtos inovadores, tornando-se único em Portugal e um dos mais atractivos do seu tipo na Europa.
João Mirão, geólogo e director do laboratório, e João Valente, vice-reitor da UE, foram os cicerones da visita, que contou, também, com a presença de Ângelo Alves e Patrícia Machado, da Comissão Política do PCP, e Abílio Fernandes, ex-presidente da Câmara Municipal de Évora e mandatário regional da candidatura da CDU ao Parlamento Europeu (PE), entre outros militantes, apoiantes e activistas.
João Mirão deu conta que o laboratório trabalha, sobretudo, com pessoas ligadas à geologia, química e bioquímica, mas também com arqueólogos, historiares e conservadores. Para ilustrar o que ali se faz, referiu a identificação de produtos de alteração para determinar de que forma se pode realizar a conservação de obras de arte, como do norueguês Edvard Munch ou do português Almada Negreiros. Um trabalho que se estende à indústria de pedras ornamentais, de forma a garantir uma competitividade maior das empresas portuguesas, ou ao conhecimento de como se alimentavam civilizações antigas ou como se relacionavam as sociedades, entre outras potencialidades. Tudo isto com potentes microscópios electrónicos e outros equipamentos de ponta.
No entanto, identificou João Mirão, para se atingir resultados são necessários «equipamentos e uma equipa», ali com 40 «pessoas com doutoramento, integrados e reconhecidos pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)».
Destes, 11 são professores e os restantes são investigadores, muito poucos com contrato a termo permanente, o que gera um «problema de instabilidade», até porque existem «pessoas com cerca de 50 anos que tentam comprar casa e não conseguem». João Valente alertou para o «corpo docente envelhecido».
Paulo Raimundo acrescentou a necessidade de «estabilidade mental», um problema «estrutural» no País e na Europa, quando «temos no País profissionais extraordinários».
Profundas dificuldades
No debate que se seguiu, o Secretário-Geral do PCP manifestou preocupação com as profundas dificuldades com que se confrontam os investigadores, a maior parte com vínculos precários. Uma situação que se vem agudizando, atingindo com particular gravidade os bolseiros de investigação mais jovens.
Frisou também que não é possível a modernização do aparelho produtivo sem um grande investimento e aposta no Sistema Científico e Tecnológico Nacional. Defendeu por isso que o Estado deve definir uma política científica que tenha em conta as necessidades nacionais, nas várias esferas da actividade económica e social. Como exemplo, referiu os défices nacionais nos cereais, nomeadamente no trigo, cevada e centeio.
Terminou com duas certezas: o novo Governo PSD-CDS não resolverá os problemas estruturais relativos à organização da investigação científica em Portugal, antes agravará a situação de precariedade em que trabalham 90 por cento dos investigadores, que [segunda ideia] estão hoje mais conscientes e unidos na necessidade de lutar pelos seus direitos.
«Não há investigação e ciência sem investigadores e cientistas», que «não podem continuar a viver na precariedade», salientou o Secretário-Geral comunista, frisando ser necessário «mudar esta situação rapidamente», colocando «toda esta energia, força e conhecimento ao serviço do País».
No seu programa eleitoral para as legislativas de 2024, o PCP propõe – entre um vasto leque de propostas – reavaliar a estrutura, modo de funcionamento e princípios orientadores da FCT; duplicar a despesa em Investigação e Desenvolvimento Experimental per capita de investigador ETI no sector público e adequar as normas da contratação pública; aumentar o financiamento de base dos centros de investigação; integrar nas carreiras específicas todos os trabalhadores científicos que suprem necessidades permanentes; revogar o Estatuto do Bolseiro de Investigação e substituir todos os contratos de bolsa de investigação por contratos de trabalho, com valorização salarial e integração progressiva nas carreiras.
Actualidade mediática
Interrogado pelos jornalistas, falou ainda sobre a constituição de uma comissão de inquérito à gestão da Santa Casa, assegurando que não será com o voto contra do PCP que «não se esclarecerá tudo o que há para esclarecer». No entanto, lamentou o chumbo da comissão parlamentar de inquérito proposta pelo PCP à privatização da ANA, que «aponta, no mínimo, para um crime económico» e que «lesou o Estado em mais de 20 mil milhões de euros».