Abril, protagonismos e apagamentos

As comemorações populares do 25 de Abril foram, sem sombra de dúvida, o acontecimento maior da vida nacional nas últimas semanas. Olhando para os noticiários das 20h00 das televisões do próprio dia, são fáceis de detectar várias opções editoriais inexplicáveis.

No caso da RTP, a abertura do seu Telejornal andou perdida entre a já recorrente, ainda que sempre lamentável e bacoca, sede de protagonismo de José Rodrigues dos Santos (com o seu, também insistente, activismo que já não disfarça), e o discurso do Presidente da República, na sessão solene da Assembleia da República. Manter alguém que insiste em impor a sua tresleitura do mundo e do País (como a divisão de blocos políticos entre o «socialismo» e o «não-socialismo», ou a caracterização do 25 de Abril como tendo aberto o caminho para «a nossa democracia liberal») até pode ser um reflexo de incúria, falta de coragem ou imobilismo de quem manda na RTP, mas não deixa de ser uma marca negativa na informação da estação pública. Razões que podem também explicar a subalternização da notícia do dia – as comemorações populares, com a sua dimensão absolutamente extraordinária – à dimensão institucional. Foi o único dos três canais generalistas a assumir essa opção, contribuindo para uma percepção de alinhamento com o(s) poder(es) e de um certo conservadorismo que, interna e externamente, recai sobre si.

De qualquer das formas, seja como expressão de submissão ao poder político, desvalorização da dimensão popular de Abril ou simplesmente por esquematismo ou imobilismo, o principal noticiário da estação pública de um dia histórico começou pelo acessório e só depois foi ao fundamental.

Erro que não cometeu a SIC, o que não significa que tenha passado incólume no cumprimento das regras do bom jornalismo na cobertura das comemorações populares. A sede de protagonismo do pivô, no caso de Rodrigo Guedes de Carvalho, também marcou presença, ainda que desta vez o texto tenha sido mais acertado que noutras ocasiões. Já a peça que se seguiu, conseguiu o prodígio de inverter a ordem das coisas e começar por dar voz a quem, lá estando, também era acessório: primeiro falou Aguiar-Branco, o presidente da Assembleia da República, depois Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, ambos do PSD. Nem um, nem o outro, nem o seu partido integram a comissão promotora do que ali se passava, as comemorações populares do 25 de Abril. Opção tanto mais incompreensível quanto as declarações do PCP foram remetidas para os últimos segundos da peça, para lá de nem sequer terem sido incluídas declarações de todos os partidos com representação parlamentar que integram a comissão promotora.

Já no passado sábado, regressou a brutal desvalorização da dimensão popular das comemorações de Abril, no caso do desfile em Peniche que assinalou os 50 anos da libertação dos presos políticos e a inauguração do Museu Nacional Resistência e Liberdade. No Telejornal da RTP a referência a «dezenas» era desmentida pelas próprias imagens; na SIC, a expressão popular era, de novo, subalternizada à presença do Presidente da República; na TVI, a dimensão popular foi absolutamente obliterada.

 



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