Erros

Gustavo Carneiro

Até à recente resposta iraniana ao bombardeamento israelita do consulado do Irão em Damasco, a generalidade dos órgãos de comunicação social destacava as palavras duras do presidente norte-americano para com Israel. Mas afinal o que disse Biden? Considerou «um erro» o que Israel está a fazer na Faixa de Gaza e garantiu discordar da «abordagem» de Netanyahu.

E foi só. Sem sanções, ameaças ou consequências.

Mas de que «erros» falava? Dos 35 mil palestinianos mortos em seis meses de bombardeamentos contra bairros, campos de refugiados, hospitais, abrigos e instalações religiosas e de privação de medicamentos, energia e alimentos? Ou dos assassinatos de centenas de jornalistas, profissionais de saúde, funcionários das Nações Unidas e trabalhadores humanitários?

O director-geral da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos (UNRWA), Philippe Lazzarini, denunciou o bloqueio das forças israelitas à entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, garantindo estar-se perante uma situação de «fome criada pelo homem». No Norte do território, onde uma em cada três crianças com menos de três anos está gravemente desnutrida, sobrevive-se com uma média de 245 calorias por dia, menos de 12% do necessário.

O mesmo Lazzarini refere-se a uma «guerra contra as crianças»: em apenas quatro meses tinham sido mortos em Gaza 13 mil menores, mais do que em todos os conflitos dos últimos quatro anos, somados. Muitos outros continuam desaparecidos e contam-se aos milhares os órfãos, os amputados, os traumatizados.

No dia 1, um ataque israelita visou a caravana de uma organização internacional de distribuição alimentar, vitimando sete pessoas e elevando para mais de 220 o número de trabalhadores humanitários assassinados desde Outubro na Faixa de Gaza. O governo israelita pediu desculpa pelo «erro grave», mas o fundador da World Central Kitchen garante que não se tratou de um engano, mas de um «ataque directo a veículos claramente identificados» – atingidos sistematicamente, um após outro. Uma semana depois, no Norte de Gaza, um veículo da UNICEF foi alvejado pela artilharia israelita…

O levantamento do cerco ao Hospital Al-Shifa, hoje reduzido a escombros, revelou um cenário «digno de um filme de terror», nas palavras do director operacional da Defesa Civil de Gaza, Raed al-Dahshan. As equipas médicas já recuperaram centenas de cadáveres, mas será difícil determinar o número exacto de vítimas: as forças israelitas enterraram corpos dentro e em redor do hospital e esmagaram outros com bulldozers. O ministro da Defesa de Israel gabou o «profissionalismo» das tropas nesta operação.

Não, não são erros, é genocídio. Cometido com armas e munições norte-americanas.

 



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