O discurso senegalês de ruptura e progresso
Nestes dias, os meios de informação do Senegal dão conta das grandes expectativas criadas, no país e na África Ocidental, com a entrada em cena de novos actores, que prometem ao povo senegalês «ruptura, progresso e mudança definitiva».
O presidente Bassirou Diomaye Faye, vencedor das eleições de 24 de Março logo à primeira volta, tomou posse no dia 2 de Abril e, horas depois, por decreto, nomeou Ousmane Sonko primeiro-ministro, que, entretanto, já formou o governo e começou a trabalhar.
Sonko e Faye, dirigentes dos Patriotas Africanos do Senegal pelo Trabalho, a Ética e a Fraternidade (Pastef), partido até há pouco ilegalizado, ainda há semanas estavam presos pelo anterior poder, que tentou impedir a sua participação nas eleições. Libertados e amnistiados após grandes manifestações populares, venceram nas urnas e estão hoje à frente da governação desse país oeste-africano, até agora um dos mais sólidos aliados africanos da França.
Tarefa difícil: o Senegal enfrenta uma crise económica «galopante», com elevada inflação, alta taxa de desemprego (cerca de 20 por cento), sobretudo entre os jovens, e pesado endividamento. Mais: persistem desigualdades sociais profundas e a pobreza atinge um em cada três senegaleses.
Durante a campanha eleitoral, Ousmane Sonko prometera empreender mudanças tanto na ordem interna como na política externa, incluindo o fim da dependência do Senegal em relação ao Franco CFA – um instrumento da política neocolonialista francesa – e a realização de auditorias dos contratos nos sectores do petróleo e do gás assinados por Dakar com empresas estrangeiras.
Empossado como primeiro-ministro, reafirmou então que os novos governantes não pouparão esforços para realizar as promessas feitas ao povo senegalês, de «ruptura, progresso e mudança definitiva no bom sentido». E insistiu que «este projecto é o de todos os senegaleses».
Do seu lado, no discurso que proferiu na cerimónia de investidura presidencial, Diomaye Faye salientou estar consciente de que «o resultado saído das urnas exprimiu um desejo profundo de mudança sistémica» e comprometeu-se, «com a promoção do culto do trabalho, da ética na governação, da disciplina e do amor à pátria, a colocar resoluta e duradouramente o Senegal na via do progresso económico e social», num ambiente de apaziguamento reencontrado e coesão nacional.
Esta primeira alocução foi também uma oportunidade para Faye lançar um apelo aos seus pares africanos. Ao acto de posse, em Dakar, assistiram representantes de 14 países africanos, entre os quais os chefes de Estado da Nigéria (presidente em exercício da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), da Mauritânia, Gâmbia, Guiné e Guiné-Bissau. Presentes, também, delegações do Mali, Burkina Faso e Níger, que formaram recentemente a Aliança dos Estados do Sahel, um pacto de defesa colectiva, e anunciaram pretender retirar-se da Cedeao.
O presidente senegalês enfatizou que a amplitude dos desafios securitários obriga os Estados africanos a maior solidariedade e garantiu o compromisso do Senegal de intensificar os esforços «pela paz, a segurança, a estabilidade e a integração africana». E repetiu estar aberto a relações «baseadas no respeito da soberania do Senegal e em parcerias mutuamente vantajosas».