O mundo de Oppenheimer

Anabela Fino

«Fi­zemos um filme sobre o homem que criou a bomba ató­mica. Para o bem e para o mal, con­ti­nu­amos a viver no mundo de Op­pe­nheimer, por isso gos­taria de de­dicar este filme aos que tra­ba­lham pela paz em todo o mundo.» Pa­la­vras do ir­landês Cil­liam Murphy, ao re­ceber há dias o Oscar de me­lhor actor pelo seu de­sem­penho no filme Op­pe­nheimer, que julgo ade­quadas para abrir esta cró­nica, re­po­si­tório de acon­te­ci­mentos que mar­caram a se­mana pas­sada.

Da Ir­landa chegou a no­tícia da der­rota do re­fe­rendo cons­ti­tu­ci­onal de 8 de Março, que vi­sava duas al­te­ra­ções: a pri­meira, alargar o con­ceito de fa­mília para além da ba­seada no ca­sa­mento, de modo a in­cluir as «re­la­ções du­ra­douras» de ca­sais que co­a­bitam e res­pec­tivos fi­lhos; a se­gunda, eli­minar da Cons­ti­tuição, da­tada de 1937, que o lugar da mu­lher é em casa e que o seu valor na so­ci­e­dade vem de cum­prir os seus «de­veres em casa».

Com uma par­ti­ci­pação que não ul­tra­passou os 50%, a pri­meira al­te­ração foi re­jei­tada por 67,7%. A se­gunda, re­la­tiva às mu­lheres, foi re­jei­tada por 73,9%. Isto num país onde, se­gundo dados ofi­ciais, a mai­oria das mu­lheres tra­balha fora de casa e cerca de dois quintos das cri­anças nascem fora do ca­sa­mento.

A se­mana trouxe-nos ainda, a pro­pó­sito do Dia In­ter­na­ci­onal da Mu­lher, um re­la­tório da ONU que dá conta de que, ao ritmo ac­tual, serão pre­cisos quase 300 anos para se al­cançar a plena igual­dade de gé­nero; os cho­cantes dados na­ci­o­nais de cerca de duas de­zenas de mu­lheres as­sas­si­nadas em con­texto de vi­o­lência do­més­tica, em 2023, e de uma mu­lher morta por se­mana só nos dois pri­meiros meses de 2024; e o es­tudo da CGTP dando conta de que, em 2022, 70% das mu­lheres tra­ba­lha­doras por­tu­guesas ga­nhavam menos de mil euros por mês, sendo que destas cerca de 46% usu­fruíam de apenas até 800 euros de or­de­nado, contra 38,7% no caso dos ho­mens, e um quinto, o sa­lário mí­nimo.

Qual ce­reja no cimo do bolo, nas elei­ções de do­mingo no país que há 50 anos tinha 800 000 emi­grantes só em Paris – à época por isso mesmo dita a «se­gunda ci­dade por­tu­guesa» – mais de um mi­lhão de elei­tores votou num par­tido ra­cista e xe­nó­fobo que pre­tende li­quidar os di­reitos dos imi­grantes. Não por acaso, foi nos con­ce­lhos com maior po­pu­lação imi­grante que tal par­tido ob­teve vo­ta­ções mais ex­pres­sivas face à per­cen­tagem re­gis­tada ao nível na­ci­onal.

Do outro lado do Atlân­tico, da sede do im­pério, o mor­domo de ser­viço, Biden, anun­ciou a cons­trução de um porto «tem­po­rário» ao largo da costa de Gaza para per­mitir a en­trada de ajuda hu­ma­ni­tária aos pa­les­ti­ni­anos, os mesmos pa­les­ti­ni­anos que Is­rael con­tinua a matar com as armas que os EUA con­ti­nuam a for­necer.

De nada serve meter a ca­beça na areia. Como bem lem­brou Murphy, con­ti­nu­amos a viver no mundo de Op­pe­nheimer. O que só pode querer dizer que a luta con­tinua.

 



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