Electro-maná

Manuel Gouveia

Foram anunciados os lucros da EDP. São estratosféricos. O lucro gerado é de 1742 milhões de euros, dos quais 1290 milhões de euros consolidam no Grupo EDP (os restantes 482 milhões são distribuídos pelos accionistas de projectos ou empresas que a EDP não detém a 100%). O ano passado esses valores tinham sido, respectivamente, de 1170 e 679 milhões. Um aumento de 49% e 90% nos lucros.

Sobre estes lucros, três ideias simples.

Para onde vão estes 1290 milhões de euros de lucros? Em Portugal, ficam 103 milhões, pois apenas 8% dos accionistas são de Portugal. Outro tanto vai para Espanha, o dobro vai para os EUA (16% do capital), e 34% (439 milhões de euros) para o resto da UE mais o Reino Unido. A China Three Gorges leva 269 milhões de euros (20,86% do capital).

Uma das informações foi a do grupo ter pago 603 milhões de euros em impostos sobre o rendimento. Tendo em conta que o lucro antes de impostos foi de 2375 milhões de euros, estaríamos perante uma taxa efectiva de 25%. Ora uma empresa como a EDP deveria ter pago 31,5% de imposto sobre rendimento (21% da taxa normal de IRC, 9% da taxa máxima de derrama estadual, 1,5% de taxa máxima de derrama municipal). Conseguiu evadir 145 milhões de euros de impostos através de benefícios fiscais e outras benesses. Se as propostas da IL e do CH fossem concretizadas, a tal redução de impostos que prometem a todos mas só beneficiaria os mais ricos, a EDP pagaria ainda menos impostos com a aplicação da taxa de IRC de 15% (menos 245 milhões com uma taxa efectiva de 15% ou, o que é mais provável, menos 390 milhões com a taxa de 15% e os actuais benefícios fiscais). A EDP teria poupado mais 390 milhões de euros em impostos, dos quais 31 milhões ficariam em Portugal, e o resto seria distribuído como já descrito.

Se o total de 13211 trabalhadores do grupo (final 2022) tivesse recebido um aumento de mais 150 euros por mês, isso teria custado 34,3 milhões de euros (13211x150x14x1,235). O lucro final teria sido só de 1707,7 milhões (mil e setecentos e sete milhões e setecentos mil euros). Completamente impensável, de facto.




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