Nós por cá

Anabela Fino

«A fome continua a ser uma questão política, causada principalmente pela pobreza, a desigualdade, os conflitos, a corrupção e a falta geral de acesso aos alimentos e aos recursos. Num mundo de abundância, que produz alimentos suficientes para todos, como é possível que haja centenas de milhões de pessoas a passar fome?»

A pergunta retórica de Álvaro Lario, presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, feita em Setembro último, evidencia o fracasso da ONU na erradicação da pobreza e da fome. Um mês depois, no que poderia ter sido uma resposta, o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, enunciava em Marraquexe, na sessão plenária dos Encontros Anuais do FMI e do Banco Mundial, uma evidência quase sempre escamoteada: «O Banco Mundial é meramente um instrumento que reflecte a ambição dos nossos accionistas; o progresso a que aspiramos requer que os nossos recursos e o nosso capital sejam comensuráveis com a nossa visão e com os desafios.»

Como assinalava em Janeiro a Oxfam, a propósito da cimeira de Davos, os accionistas «estão a reunir-se na estação de esqui suíça enquanto a riqueza extrema e a pobreza extrema aumentam simultaneamente pela primeira vez em 25 anos». O tema do Fórum, Cooperação num mundo fragmentado, em que participaram duas vezes mais bilionários do que chefes de Estado e governo, seria hilariante se a realidade exposta no relatório da Oxfam não fosse tão trágica: os 1% mais ricos do mundo acumulam quase dois terços de toda riqueza gerada desde 2020 – cerca de 42 biliões de dólares –, quase o dobro do dinheiro dos 99% mais pobres da população mundial. Sublinhe-se que, em 2022, os bilionários aumentaram a sua riqueza sobretudo devido aos lucros crescentes nas áreas da energia e da alimentação.

E nós por cá todos bem, segundo o Governo, embora o mais recente retrato da sociedade portuguesa apresentado pela Pordata, a base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, revele uma realidade diferente, com mais de um terço das famílias a ganhar 833 euros por mês e sem capacidade de pagar despesas inesperadas. Por falar em corda na garganta, o preço das casas aumentou 90% em 2022 face a 2015, enquanto os salários subiram apenas 20%. O retrato mostra, tendo por base as declarações de IRS,quemais de metade (53%) correspondiam a rendimentos até aos 1125 euros brutos mensais, e que «20% dos agregados fiscais mais ricos ganharam 3,5 vezes mais do que os 20% dos agregados mais pobres», sendo que «em concelhos como Lisboa, Porto, Oeiras e Cascais, a diferença é de cinco vezes mais».

Com um panorama destes, ocorre perguntar por que raio anda a opinião publicada tão obcecada com o IUC. Pelos vistos, é este o grande problema do Orçamento do Estado, que nós por cá todos bem.




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