Conceitos mortais
A escalada em curso na Palestina e as suas trágicas consequências marcam também uma nova vaga de uma operação em curso no espaço mediático que visa criar uma linguagem nova, martelada até à exaustão de forma a sacralizar determinados termos, muitas vezes esvaziados de conteúdo e que visam apenas legitimar as acções dos centros determinantes do capital transnacional e do imperialismo.
Foi assim com a palavra «pandemia», que foi esvaziada do seu conteúdo técnico para se tornar num dogma que contribuiu para a construção de um clima de pânico paralisante, abrindo caminho para um conjunto de medidas que ultrapassaram largamente as necessidades de saúde pública e o ataque ao PCP quando não se submeteu ao confinamento dos direitos. Basta dizer que o HIV é «apenas» uma epidemia, apesar de já ter provocado, pelo menos, mais 10 milhões de mortes que a COVID-19.
Voltou a ser assim com a escalada da guerra na Ucrânia e todo o arsenal de mentira que serviu para atacar o PCP. De entre os vários estágios dessa operação, destacou-se a rábula em torno da palavra «invasão». Pouco importou ao complexo mediático o que o PCP efectivamente ia dizendo e quais as suas posições, transformando a utilização ou não da expressão «invasão» na linha que separa a civilização e a barbárie.
No actual momento, quando do lado dos falcões da guerra se caucionam todos os actos sobre a população de Gaza sujeita a um cerco que lembra tempos medievais, o anátema é lançado sobre quem não usa os termos sacrosantos dos centros de difusão ideológica do imperalismo. Como bem explicou recentemente o embaixador de Israel em Portugal, para eles, quem não afirme a plenos pulmões o seu apoio incondicional às acções israelitas, é anti-semita. Ou, nas palavras dos concorrentes ao prémio de mais trauliteiro da direita portuguesa, é conivente com a decapitação de bebés. É este o nível da discussão no plano político, interligada com a forma como tem expressão no plano mediático – expresso de forma muito clara num editorial recente do Público: «Amargamente, sabemos que irão morrer outra vez milhares de inocentes, mas numa abordagem realista não é possível impedir que Israel retalie depois do cobarde ataque terrorista de que foi vítima.»
O realismo de que aqui se fala é o mesmo que tem ditado a morte de palestinianos às dezenas, centenas ou milhares ao longo de décadas de ocupação sem que a estes tenha sido dedicado uma fracção da atenção mediática a que assistimos na última semana. Em resumo: o valor noticioso atribuído à morte nas redacções é geralmente ditado por critérios que nada têm de objectivo, mas de alinhamento com os interesses do imperialismo, de recorte racista e xenófobo, seja ele mais ou menos consciente.
Também por aqui se explica que ao PCP sejam feitas repetidamente as mesmas questões repletas de insinuações e alimentando acusações falsas de anti-semitismo, enquanto os que apregoam a solidariedade incondicional com o ocupante, mesmo que isso signifique a morte de «milhões de inocentes», passam sem o escrutínio jornalístico – isto quando não assumem eles próprios lugares de comando na comunicação social.