«Correspondente de guerra»
O discurso político e mediático justificativo da guerra tem recursos poderosíssimos, a todos os níveis, nomeadamente ideológicos, militares e económicos. Convencer milhões de pessoas do «Ocidente alargado» de que a guerra e as sanções são justas, necessárias e inevitáveis é uma questão-chave para o imperialismo, que merece todos os esforços.
O livro Princípios elementares da propaganda de guerra, publicado nas edições Avante!, continua a ser de leitura obrigatória para quem queira continuar a pensar pela sua cabeça, apesar de ver notícias. Lá estão sintetizados os mecanismos essenciais da propaganda de guerra: «nós não queremos a guerra»; «o campo adversário é o único responsável pela guerra»; «o inimigo tem o rosto do diabo»; «defendemos uma causa nobre e não interesses específicos»; «o inimigo provoca conscientemente atrocidades, se nós cometemos erros, é involuntariamente»; «o inimigo utiliza armas não autorizadas»; «sofremos muito poucas perdas, as perdas do inimigo são enormes»; «os artistas e intelectuais apoiam a nossa causa»; «a nossa causa tem um carácter sagrado»; e, finalmente, «os que põem em dúvida a propaganda são traidores». Pense-se em Milhazes, Sollers, Ribeiros e aparentados, e veja-se se não está lá tudo.
Claro que com tantas horas de transmissão, tantos milhares de caracteres e tantos repetidores de frases feitas a possibilidade de falha vai aumentando. A propaganda levada ao limite deixa de ser credível. É o caso de uma rubrica que a CNN transmite, Correspondente de guerra. Um conjunto indescritível de fontes suspeitas, boçalidades a ridicularizar o adversário, intrigas e generalizações, tudo envolvido num tom de jocosa superioridade, que mistura teorias da conspiração com excertos de vídeos de programas de televisão russos e dos serviços de informação ucranianos. Um objecto televisivo inclassificável, sem qualquer fronteira entre opinião e informação, superficial e preconceituoso.
Se algum dos leitores do Avante! quiser testar os Princípios elementares da propaganda de guerra sem perder demasiado tempo, recomenda-se. Dez minutinhos bem concentrados de propaganda, a não perder.