Maio está vivo!

Cristina Cardoso

Maio mostrou que há disponibilidade para transformar

O Dia Internacional do Trabalhador, surgido há 137 anos da heróica luta dos trabalhadores de Chicago pela jornada de trabalho de 8 horas (8 de trabalho + 8 de lazer + 8 de descanso), afirmou-se mais um ano como uma grande jornada de luta que levou às ruas milhões de trabalhadores. Pelo aumento dos salários, contra o aumento do custo de vida, contra a precarização do trabalho, por uma vida digna, as reivindicações foram e são transversais nas mobilizações dos trabalhadores, que tiveram lugar nas várias regiões do mundo.

Na América Latina, foram vários os países em que o movimento sindical mobilizou os trabalhadores em torno da defesa dos seus direitos, mas também em que se denunciou a ingerência do FMI na Argentina, se exigiu nas ruas do Equador a demissão do presidente Guillermo Lasso, se reivindicou o aprofundamento das mudanças económicas e sociais e o reconhecimento dos direitos sindicais no México. Cuba, que por força do bloqueio criminoso e ilegal imposto pelos EUA, se viu obrigada, por falta de combustível, a prescindir do grande e tradicional desfile que se realiza em Havana, realizando manifestações descentralizadas no dia 5 Maio, em defesa da Revolução. Na Ásia, na Coreia do Sul e Japão foram muitos milhares de trabalhadores a manifestar-se contra a subida dos preços e a exigir aumentos salariais; na Indonésia, grande mobilização contra leis laborais propostas pelo governo. Na Europa, realizaram-se manifestações e eventos de celebração um pouco por toda a parte com grandes mobilizações, como em Portugal, Espanha, Grécia, Reino Unido e outros países, com destaque para a França, onde os trabalhadores não cessam a sua luta contra o aumento da idade da reforma imposto pelo governo de Macron, mobilizando mais de dois milhões por todo país. O seu tratamento mediático, procurando apagar a força da luta organizada com os incidentes e a repressão policial, é estratégia antiga do capital para criar medo e assim desmobilizar e descredibilizar a luta consequente dos trabalhadores.

O 1.º de Maio é uma data carregada de relevo e profundo significado na luta da classe operária e na conquista dos seus direitos ao longo de gerações. Com avanços e recuos, nas reivindicações dos trabalhadores de hoje também estão presentes os motivos das lutas de 1886. Isto porque as relações sociais de exploração não se alteraram e a luta de classes é uma realidade incontornável.

Atravessámos mais de um século de transformações políticas, económicas, sociais e civilizacionais, encontramo-nos na chamada revolução industrial 4.0, em que os avanços científicos e tecnológicos atingiram níveis ficcionais, mas o paradigma continua o mesmo – a procura incessante para obtenção do lucro à custa da exploração dos trabalhadores, à custa do tempo de trabalho não pago (sobretrabalho).

Perante a acentuação da natureza exploradora, opressora, agressiva e predadora do capitalismo, negando direitos e a resposta às necessidades básicas de milhões de seres humanos, que ataca as liberdades e a democracia, promove a guerra e o fascismo, os trabalhadores não se resignam, mostrando mais uma vez neste 1.º de Maio que, perante os perigos com que humanidade está confrontada, há disponibilidade para transformar.







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