Os décimos

Gustavo Carneiro

Paulo Raimundo esteve há dias à porta de uma fábrica a divulgar as propostas do PCP relativas ao trabalho por turnos e nocturno, situação que atinge directamente 1,8 milhões de trabalhadores em Portugal e tem graves consequências na sua vida pessoal e familiar, bem como na sua saúde física e mental. O Partido pretendia limitar as situações que justificam o recurso a este tipo de horários e reforçar direitos e rendimentos de quem tem de trabalhar ao serão, à noite e aos fins-de-semana.

Ao contrário do que sucedeu em muitas outras iniciativas semelhantes, desta vez os órgãos de comunicação social compareceram no local. Porém, não lhes interessava saber mais sobre a desregulação dos horários de trabalho e suas consequências. Queriam, tão somente, obter comentários à polémicado dia (há sempre uma, tem sempre de haver uma). À insistência dos jornalistas respondeu o Secretário-geral do PCP, uma e outra vez, com a necessidade de se centrar a atenção naquilo que é fundamental, os problemas que afectam a maioria da população: «Se a discussão sobre os turnos, que é uma questão concreta, tivesse um décimo da atenção mediática que têm tido essas coisas, a pressão sobre quem tem de decidir também seria maior do que aquela que é.»

Tinha razão: a proposta do PCP foi rejeitada no dia seguinte por PS, PSD e IL, e abstenção do Chega, sem que sobre isso se tenha dito ou escrito praticamente nada nos principais jornais e noticiários, mais dados a dar corda a tricas e escandaleiras, reais ou instigadas. Entretanto, milhares continuarão a passar noites, sábados e domingos longe dos seus, a trabalhar – tanto em bancos de urgência hospitalar e ao volante de autocarros como a produzir salsichas ou componentes para automóveis.

Este é apenas um exemplo recente daquela que é uma tendência geral, e nada inocente, do actual sistema mediático: a preferência pelo acessório em detrimento do essencial.   

Faz-se o mesmo com a TAP, acerca da qual tanto se tem falado da vergonhosa indemnização de 500 mil euros paga a uma administradora e nada sobre o obscuro negócio de 500 milhões (mil vezes mais!) a que a anterior gestão privada amarrou a empresa. Também aqui é caso para dizer que se tivesse sido dado a isto um décimo da atenção concedida ao resto e seriam seguramente ainda mais os que se oporiam a uma nova privatização da companhia aérea nacional. Já sobre o 25 de Abril, destacaram a encenação do Chega, os «protestos» da IL, os ralhetes do Santos Silva, bem acima do relevo dado à extraordinária dimensão das comemorações populares em todo o País e, sobretudo, ao que nelas se reivindicou.

Façamos então nós, por nossas mãos, estes décimos que a outros caberia.




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