Antifascismo e movimento operário

Filipe Diniz

A Itália é um dos vários países europeus em que a extrema-direita está no governo. A primeira-ministra Meloni é uma admiradora declarada de Mussolini. Será desnecessário acrescentar que os direitos e liberdades dos trabalhadores são os primeiros a pagar o preço. A histórica central sindical CGIL devia sabê-lo bem. Ainda em 2021 a sua sede foi assaltada e vandalizada pelo grupo fascista Forza Nuova.

Acontece que a CGIL promoveu recentemente uma «caravana de solidariedade com os trabalhadores ucranianos» (com um alinhamento bastante equívoco, mas isso será com eles), em cuja deslocação se fez fotografar. O local escolhido não podia ser pior: foram fotografar-se em frente à Casa dos Sindicatos de Odessa, onde, em 2014, 42 trabalhadores foram queimados vivos pelos nazis que o Golpe da Praça Maidan instalara no poder. Não houve referência à questão.

Falta de memória? Não vale a pena enveredar por aí. Poder-se-á, contudo, reflectir um pouco em torno do ambiente ideológico envolvente. Sobre a questão central – e determinante – do antifascismo no movimento operário e no movimento dos trabalhadores em geral. Ou seja, a questão do fascismo no quadro da luta de classes. A luta sindical é luta política, sejam quais forem os critérios de classe que adopte.

O avanço da extrema-direita resulta sempre da capacidade que tenha de ocultar a sua verdadeira natureza e objectivos e de enfraquecer resistências. Da capacidade de quem a promove, financia e sustenta se manter nos bastidores. Mal estarão os trabalhadores que se deixem iludir, que abdiquem da independência de classe, que se deixem enredar no avassalador discurso dominante.

Os fascistas mais perigosos não são os que se declaram admiradores de Mussolini ou de Bandera. São os que trabalham hoje para fazer o mesmo que eles fizeram. Movem-nos exactamente os mesmos interesses de classe.




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