Examine-se

João Frazão

Para que serve a avaliação dos estudantes? Deveria servir para aferir, em cada momento, os conhecimentos adquiridos e para se tomarem medidas para puxar pelos que estivessem com mais dificuldades.

A escola pública, construção de Abril, tem a obrigação de assegurar a todos, independentemente das suas condições socio-económicas, das suas origens ou das suas especificidades, as mesmas oportunidades e os apoios necessários para prosseguirem, todos com sucesso, até aos mais elevados graus de ensino.

Contrariamente a esta visão, a avaliação tem servido para seriar, para determinar quais os que ficam para trás ou quais os que avançam em melhores condições, designadamente pelo agrupamento em determinadas turmas ou mesmo escolas.

Serve também, na visão dos arautos da política de direita, para criar novos obstáculos ao acesso ao Ensino Superior, usando para isso a figura dos exames.

O Governo anunciou agora que os exames, em vez de pesarem menos, ou mesmo serem eliminados, pesarão ainda mais no acesso ao Ensino Superior, num novo modelo a apresentar brevemente.

E nós voltamos à pergunta. Para que serve a avaliação? Se os estudantes foram avaliados durante 12 anos, para quê um exame de duas horas em que pode correr tudo bem, mas também pode correr tudo mal, transformando as aulas, não em momentos de aprendizagem, de crescimento intelectual, mas em actos sucessivos de preparação para o tirocínio examinatório.

Dizem-nos que os exames são necessários para aferir as classificações atribuídas pelas escolas privadas que, consta-se, serão inflacionadas.

A nossa reacção não pode ser de maior estupefacção! Se há suspeitas de que tal ou tal escola inflaciona artificialmente as notas de parte ou da totalidade dos seus alunos para lhes permitir um acesso mais facilitado ao ensino superior, e se essa suspeita é tão fundada que obriga a prejudicar centenas de milhar de estudantes com o dito exame, então examine-se cada uma destas situações, examine-se a natureza do que lhe está subjacente (a busca de resultados e de lucros imediatos), examine-se as razões para que entre as primeiras 50 escolas com melhores resultados nos exames apenas uma ou duas sejam públicas, e apliquem-se as medidas que se impuserem.

A avaliação contínua exige muito mais, mas dá muito mais resultado!




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