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Gustavo Carneiro

Nos úl­timos tempos, em vá­rios países, têm sido des­truídos ou re­ti­rados do es­paço pú­blico mo­nu­mentos evo­ca­tivos da vi­tória sobre o nazi-fas­cismo e do papel de­ter­mi­nante nela as­su­mido pela União So­vié­tica. Ou­tros, com a mesma origem – e se­me­lhante des­tino –, exaltam a paz e a ami­zade entre os povos.

Em Riga, ca­pital da Le­tónia, foi de­mo­lido o obe­lisco de quase 80 me­tros que as­si­na­lava a li­ber­tação da ci­dade pelo Exér­cito Ver­melho, evo­cado também num me­mo­rial des­truído em Brzeg, na Po­lónia. Da ter­ceira maior ci­dade da Es­tónia, Narva, foi re­mo­vida a ré­plica do tanque T34 que aí ho­me­na­geava os sol­dados so­vié­ticos caídos a li­bertar o ter­ri­tório. Também o Monu­mento à paz mun­dial foi re­ti­rado da rua de Hel­sín­quia onde se en­con­trava há mais de 30 anos. O mesmo acon­teceu nou­tros países e ci­dades e a coisa pro­mete não ficar por aqui.

A jus­ti­fi­cação dada, comum a todos estes casos, é sim­ples – e nada ori­ginal: com a guerra na Ucrânia, é in­sus­ten­tável manter mo­nu­mentos a elo­giar «a Rússia». Mas tal ar­gu­mento não é apenas falso como oculta bem mais do que que re­vela.

Regra geral, a re­ti­rada deste tipo de mo­nu­mentos não co­meçou em Fe­ve­reiro, mas há dé­cadas, en­qua­drando o des­man­te­la­mento das con­quistas do so­ci­a­lismo e apla­nando o ca­minho para o ca­pi­ta­lismo sem freios, para o na­ci­o­na­lismo, para o fas­cismo. Na Le­tónia, a di­a­bo­li­zação do le­gado so­vié­tico anda a par com a glo­ri­fi­cação da di­visão local das Waffen SS, a quem todos os anos é pres­tada ho­me­nagem pú­blica (cerca de 100 mil le­tões, dos quais 70 mil ju­deus, mor­reram na guerra).

Da Po­lónia chegam os re­cuos nos di­reitos das mu­lheres, a proi­bição de sím­bolos e par­tidos co­mu­nistas, o na­ci­o­na­lismo agres­sivo e o des­bra­gado mi­li­ta­rismo: bri­gadas pa­ra­mi­li­tares de ín­dole ra­cista e fas­ci­zante in­te­gram as Forças Ar­madas e par­ti­cipam em exer­cí­cios da NATO. À se­me­lhança, aliás, do que su­cede na Ucrânia, onde as leis de des­co­mu­ni­zação pro­mo­vidas desde o golpe de 2014 fa­ci­li­taram a cri­ação do au­tên­tico culto de Es­tado que é hoje pres­tado a Stepan Ban­dera, co­la­bo­rador do nazi-fas­cismo no mas­sacre de mi­lhares de so­vié­ticos (ucra­ni­anos, russos, ju­deus) e também de po­lacos.

Já a Fin­lândia acaba de trocar a sua his­tó­rica po­lí­tica de neu­tra­li­dade pela adesão a um bloco po­lí­tico-mi­litar agres­sivo, com res­pon­sa­bi­li­dades de pri­meiro plano na si­tu­ação dra­má­tica, e po­ten­ci­al­mente ex­plo­siva, que se vive no Leste da Eu­ropa: o Mo­nu­mento à paz mun­dial trans­formou-se assim numa re­cor­dação in­di­gesta.

Apagar da cons­ci­ência co­lec­tiva a ex­pe­ri­ência so­vié­tica, o mo­saico de povos que lhe deu vida, o seu papel na der­rota do nazi-fas­cismo e na con­quista e ma­nu­tenção da paz, faz parte da es­tra­tégia in­cen­diária do im­pe­ri­a­lismo para a re­gião – e para o mundo. Travá-la passa também pela ba­talha da me­mória.




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