Ouvir Engels
Veja-se os grandes grupos da distribuição, Jerónimo Martins e Sonae. À conta de uma brutal escalada nos preços, têm aumentos exponenciais nos lucros. Em ambos os casos os lucros líquidos após impostos são ainda percentualmente superiores, pela simples razão de que a esse aumento dos lucros corresponde um insignificante aumento de impostos. Não se resiste a ouvir Engels sobre os mercadores: «Aqui surge […] uma classe que, não tomando de modo nenhum qualquer parte na produção, conquista a direcção da produção no seu todo e submete a si economicamente os produtores; que se torna o intermediário inevitável entre quaisquer dois produtores e os explora a ambos. […] forma-se uma classe de parasitas, de autênticos parasitas sociais que, como recompensa de serviços reais muito reduzidos, fica com a nata da produção.» (Obras Escolhidas de Marx e Engels, TIII, p.362). Palavras duras, escritas com justeza. Há coisas que não mudam no capitalismo, e esta é uma delas. A diferença são gabinetes de relações públicas empenhados em dar polimento à gente assim descrita.
Tal como se mantém a política fiscal à sua medida, e o Governo PS recorre a todos os malabarismos para não lhe mexer. O grande capital, incluindo o de aqui ao lado, entende-o. A direita espanhola, pela voz do presidente do PP, elogia «a política fiscal portuguesa» focada – acha ele – no «crescimento da economia e na atracção de patrimónios, rendimentos e investimentos». Quanto à economia, acontece o contrário.
Já se sabe que a maioria absoluta torna o PS ainda mais surdo aos trabalhadores e ao povo português, à cada vez maior desigualdade e maior risco de pobreza. Mas ao menos que tire conclusões de onde lhe vêm os elogios, se for capaz. Os interesses que ouve são os de uma insignificante minoria, o contraste agudiza-se todos os dias. A luta contra esta situação cresce, e não haverá propaganda nem cortinas de fumo que a possam deter.