As veias fechadas da América assassina
Um homem — ainda assim um homem — é amarrado a uma maca. Quatro médicos, se é que assim podemos chamar a renegados de Hipócrates, picam-lhe a carne flácida das mãos, dos pés, dos braços, do pescoço. Três horas mais tarde, conseguiram transformar Alan Eugene Miller — é esse o seu nome — num picotado humano por onde se pode rasgar uma pessoa indefesa e desgarrada em gritos, a escorjar-se em vão contra as correias na própria urina, nas próprias lágrimas, no próprio desespero. O que não conseguiram foi encontrar-lhe, em todo o corpo, uma única veia. Ainda assim, e tal e qual como os médicos, para além de assassino ele também é um homem.
Em 1999 Miller matou três homens. Quando o Estado do Alabama o condenou à morte, em 2002, ele jura ter exercido o seu «direito» a escolher do cardápio da morte o método de abate. «Quero ser morto por hipóxia de nitrogénio», terá deixado escrito numa nota, cuja existência que o Estado do Alabama desmente. Na impossibilidade de também desmentir a mórbida ironia de se chamar direito à escolha entre a injecção letal e a asfixia, o Alabama acusa o condenado de, propositadamente e com má-fé, ter escolhido um método de execução cujo protocolo ainda não está finalizado. Afinal de contas, matar um homem não é tarefa simples. Pelo contrário, reclama o que de mais elevado e moderno há na Medicina, no Direito, na Química e na Engenharia. E como a conjugação de tantos saberes e técnicas num só protocolo leva tempo, não foi possível asfixiar Miller conforme o próprio alegadamente solicitara.
No passado dia 19 de Setembro, após uma longa batalha judicial, um tribunal federal obrigou o Estado do Alabama a respeitar o direito de Miller a ser morto por asfixia. Inconformado, o Estado recorreu à instância superior. Perdeu novamente. Aflito com a cada vez mais próxima caducidade do mandado para executar Miller, o Estado do Alabama, apelou ao Supremo Tribunal que, no último dia dentro do prazo do mandado de morte, que foi a passada quinta-feira, levantou a proibição de administrar a injecção letal.
Mas passadas três horas, o Alabama não conseguiu encontrar uma veia com que assassinar o assassino e os médicos tiveram de suspender a execução. Acontece em sete por cento dos casos. Alguns não têm tanta sorte: a autópsia de Noe Nathan James, por exemplo, executado por injecção letal, no mesmo Estado, a 28 de Julho, identificou «manchas e picadas por todo o corpo, pele descolorada nas mãos, pulsos e pés. Um corte profundo, irregular e vertical, num ângulo obtuso, no cotovelo, para aceder à veia».
Escorreita, a governadora do Alabama, Kay Ivey, veio a terreiro prometer voltar a amarrar Alan Eugene Miller a uma cama «mais cedo do que ele está à espera» e «encontrar-lhe uma veia, leve o tempo que levar, custe o que custar». Certamente, vai ser mais difícil encontrar humanidade na governadora do Alabama do que uma veia no braço de um assassino.