Branqueamento de um negro legado

Cristina Cardoso

O imperialismo britânico oprimiu dezenas de povos

Elizabeth Windsor morreu no dia 8 de Setembro. Desde então, viveu todos os dias, por longas horas, nas tv’s, nas rádios e nos jornais. Promoveu-se o sentimento de consternação do povo com os hábitos da rainha inglesa, os seus trajes, a sua história de amor, de família, e as polémicas.

Tendo presente o sentimento de perda vivido por muitos britânicos, assistimos a uma história de encantar contada vezes sem conta, mascarando a difícil realidade imposta ao povo britânico pelos interesses dos grandes grupos económicos e branqueando o sangrento legado imperial do Reino Unido.

O imperialismo britânico oprimiu ao longo da história dezenas de povos por todo mundo, tendo responsabilidade na morte e no sofrimento milhões de pessoas, na rapina de riquezas naturais, no empobrecimento e subdesenvolvimento de muitos países, que serviram para engrandecer a sua riqueza e poderio.

A rainha Elizabeth II chegou ao trono após a II Guerra Mundial, já o grande ímpeto dos movimentos de libertação e da independência dos povos estava a ter lugar, particularmente em África, acelerando a ruína do império.

Durante o seu reinado, tiveram lugar crimes e atrocidades contra povos colonizados e que ousaram rebelar-se, como no Quénia, em que o movimento de libertação foi brutalmente reprimido pelos soldados britânicos entre 1952 e 1960, onde cerca de 1,5 milhões de pessoas foram encarceradas em autênticos campos de concentração. A repressão de lutas pela independência do domínio britânico, como em Chipre ou em Adem, que levou à declaração de independência da República Popular Democrática do Iémen, entre muitos outros exemplos.

A Irlanda do Norte, continua a ser a colónia mais próxima e a mais antiga do Reino Unido, que durante três décadas viveu um conflito marcado pela violência, pela repressão contra os que defendiam a reunificação da Irlanda, deixando mais de 3 mil mortos, tendo como momentos mais negros o Domingo Sangrento de 1972 e as greves de fome protagonizadas por prisioneiros irlandeses, como Bobby Sands – momentos que ainda hoje ensombram a história recente do Reino Unido.

Ao longo dos últimos 70 anos ficou claro o papel que a monarquia desempenhou ao serviço dos grandes interesses económicos e imperiais do Reino Unido. Muitos outros exemplos podem ser dados, como a crise do Suez em 1956-57, com a invasão do Egipto, ou a guerra das Malvinas, contra a Argentina em 1982. Não esquecemos o papel do Reino Unido e a sua participação directa na guerra do Afeganistão entre 2003-2014 e na invasão do Iraque em 2003, deixando um rasto de destruição e centenas de milhares de mortos. E muito menos a ajuda à ditadura de Salazar com a sua visita a Portugal em 1957.

Na novela a que assistimos na última semana, em que inclusive se assistiu no nosso país a um certo saudosismo bacoco e a posturas servis, reescreve-se a história e a aceitação de um privilégio herdado sem escrutínio do povo. Mas a luta pela independência e soberania dos povos, ainda hoje submetidos ao neocolonialismo britânico, prossegue.

 



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