O livro como arma

Manuel Rodrigues

A 92.ª edição da Feira do Livro de Lisboa encerrou no passado dia 11 de Setembro no Parque Eduardo VII, em Lisboa.

 Iniciativa livreira com um passado honroso – 91 edições em prol do livro e da leitura – apresentou-se este ano com 340 pavilhões, 140 participantes, centenas de marcas editoriais, que fazem desta a maior edição de sempre do certame, para regozijo dos seus muitos milhares de visitantes.

Há, no entanto, um facto desconcertante na edição deste ano da Feira do Livro de Lisboa: ter assumido a Ucrânia como convidada de honra da Feira, com direito a um pavilhão próprio.

Como é óbvio, o problema não está na divulgação da literatura Ucraniana que, como as literaturas de outros povos e países, é expressão de valores literários, nacionais e universais, credores do máximo respeito.

A surpresa está no facto do convite se dirigir ao País cujo actual governo, através do seu Ministro da Cultura e Informação ordenou recentemente (Maio deste ano) que se destruíssem, na Ucrânia, todas as obras editadas na Rússia, publicadas em língua russa ou traduzidas em língua russa (mais de 100 milhões de livros), ordem que se aplica, inclusivamente, a todos os clássicos da literatura russa, de Alexandre Pushkin a Leão Tolstoi, Máximo Gorki, Fiodor Dostoievski, Anton Tchekhov entre tantos outros vultos da Literatura Universal.

É verdadeiramente surpreendente que a Feira do Livro de Lisboa, com tal convite e este tratamento honroso ao País que promove este monumental «auto de fé» acabe por dar o seu aval àqueles que assumem, deliberadamente, uma política de destruição do livro, só comparável a idênticas «fogueiras» ateadas pelo nazifascismo. Sem esquecer, em Portugal, a «fogueira» da censura que o fascismo ateou.

Todos os povos – incluindo o povo ucraniano – têm direito e merecem celebrar, em paz, os seus valores. Mas aquilo que o Governo ucraniano está a fazer não é cultura, é um acto bárbaro de anti-cultura e de guerra, de que a primeira e principal vítima é o seu povo e que, porque mexe com uma questão civilizacional, é uma ofensa a todos os povos do mundo.

Por isso mesmo é que espanta e causa incómodo que à divulgação do livro como acto de cultura se associe a acção obscurantista dos que o vêem com o alvo a abater.




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