Assange nas terras de sua majestade

Manuel Gouveia

«Deixa-me contar-te uma estória. Quando se publicaram “As Vinhas da Ira”, ficou muita gente chateada comigo. O sub-Xerife do Condado de Santa Clara era meu amigo e disse-me o seguinte: “Não te metas sozinho num quarto de hotel. A cada minuto tem presente o que fizeste, e quando saíres do Rancho viaja com um ou dois amigos, mas sobretudo não fiques sozinho num quarto de hotel.” “Porquê?” perguntei eu. Disse-me: “Estou a arriscar o meu pescoço, mas os rapazes prepararam-te um caso de violação. Se ficas sozinho num quarto de hotel aparecerá uma senhora, rasgar-se-á a roupa, arranhará a cara e fará um escândalo, e depois tu terás de lidar com isso. Ao teu livro não o tocarão, mas há caminhos mais fáceis”. É uma sensação horrível, especialmente porque funciona. Nunca mais ninguém teria voltado a acreditar no meu livro. E até que a coisa não se acalmou, não voltei a sair sozinho.»

Esta estória é contada pelo próprio John Steinbeck no Apêndice ao seu livro sobre «Os feitos do Rei Artur». E resulta difícil não fazer a associação com a provocação montada contra Assange, preso sob uma acusação – já arquivada por absoluta falta de substância – de violação, e que continua preso, no Reino Unido, agora acusado do “crime” de publicar algumas verdades sobre as guerras travadas pelos EUA.

Que os “jornalistas” portugueses informem sobre o nome dos cães da falecida Rainha, e não informem sobre o preso político Julius Assange, é bem digno daquelas aspas. Mas que esperar de gente que fala da «mais antiga aliança do mundo» ignorando que era contra os bretões do ultimato que no nosso hino se marchava, que foi para nos libertar da sua ocupação que morreram «os Mártires da Pátria» e que os «amigos de Peniche» são eles, que ali desembarcaram para «nos ajudar» e depois se portaram tão mal que deram origem ao mote, que não se dirige ao leal povo de Peniche mas a estes «aliados»?
No fundo, o livro que antecede o citado Apêndice, mostra-nos que até Camelot era povoado por personagens mais reais que os contos de fadas hoje “noticiados”.



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