Caridadezinha
Na festa do Pontal, onde o PSD, tradicionalmente, faz a sua «rentrée», o actual presidente do PSD e ex-presidente do grupo parlamentar deste partido, no período do governo PSD/CDS de Passos Coelho/Paulo Portas, mais conhecido por governo da aplicação do pacto de agressão da troika ao povo português, anunciou que o seu partido vai entregar no Parlamento uma proposta de «programa de emergência social» dedicado aos «mais necessitados» e limitado no tempo (de Setembro a Dezembro), de mil milhões de euros.
Sobre a necessidade do aumento dos salários e pensões, resposta essencial para repor poder de compra, não se lhe ouviu nem uma palavra. Sobre a necessidade de fixar e regular preços, nomeadamente dos bens essenciais, nem uma palavra. Sobre as razões fundamentais do aumento do custo de vida e a necessidade de combater as suas causas, nem uma palavra. Sobre o aprofundamento da exploração que, aproveitando as sanções e a guerra, esses grupos económicos vêm promovendo, nem uma palavra. Sobre a especulação que está a gerar o fabuloso aumento dos lucros desses grupos económicos, que no seu conjunto, e apenas nos primeiros seis meses de 2022, somaram já milhares de milhões de euros, nem uma palavra.
Em vez da necessária valorização dos rendimentos do trabalho pelo aumento dos salários e das pensões, Luís Montenegro – que é o autor da célebre frase «a vida das pessoas não está melhor, mas o País está muito melhor» – propõe mais uma vez a velha resposta da caridadezinha, certamente depois de ter obtido a beneplácita aprovação de Isabel Jonet, que em matéria de banco alimentar contra a fome, sem nunca questionar e combater as causas da pobreza, já lhes leva uma visível dianteira.
Apetece lembrar a pertinente questão colocada por Almeida Garrett: «e eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?»