Incógnitas

O navio Razoni saiu esta segunda-feira do porto de Odessa com cereais ucranianos. Outros se devem seguir, de acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Mevlüt Çavuşoğlu, que em mensagem no Twitter disse esperar que o acordo para a saída dos cereais «leve a um cessar-fogo e uma paz duradoura».

A notícia fez manchete nos órgãos de comunicação social ocidentais, mas a referência à paz, que seria de supor ser a principal preocupação em qualquer circunstância e por maioria de razões em situação de guerra, como é o caso, não teve seguidores.

A ocasião serviu, isso sim, para voltar a enfatizar a responsabilidade russa pela crise alimentar e consequente aumento da fome no mundo, atribuídos grosso modo à combinação da pandemia com a invasão da Ucrânia.

Sem negar a importância desses factores cabe lembrar que o número de pessoas desnutridas no mundo, que baixou de 811 milhões em 2005 para 607 milhões em 2014, voltou a subir para 650 milhões em 2019, atingiu de novo os 811 milhões em 2020 e subiu para 828 milhões em 2021. Mais grave, como referia em Maio um artigo de George Monbiot no The Guardian, isto sucedeu num período de abundância de alimentos – a produção de trigo em 2021 foi a maior de sempre – e de redução de preços, tendência esta só invertida nos últimos dois anos.

Não é preciso ser especialista para perceber que, num mundo globalizado, pandemias e guerras têm impacto nas condições de vida das populações. Mas também não é preciso ser especialista para entender que há várias incógnitas nesta equação, a lembrar 2008, a bolha, a derrocada do Lehman Brothers.

Questionar que raio de sistema é este onde se morre de fome em tempos de fartura. É candidatura certa ao epíteto de putinista, mas lá que o capitalismo mata, isso mata.



Mais artigos de: Opinião

Festa do Avante! – terra da fraternidade, em cada rosto igualdade

A Festa do Avante! é um acontecimento político, cultural e desportivo, que lhe confere características sem paralelo no panorama nacional. Durante três dias, naquele belo e aprazível espaço, está reflectida a diversidade do País através da gastronomia, do artesanato, da cultura popular e dos problemas e aspirações dos que vivem, estudam e trabalham nos diversos distritos e regiões autónomas dos Açores e da Madeira.

«Quem brinca com o fogo pode-se queimar»

Nas relações internacionais raramente há coincidências. É por isso que não deixa de ter um importante e perigoso significado a decisão da Presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, a democrata Nancy Pelosi (a 3.ª mais importante figura de Estado nos EUA), de liderar uma visita do Congresso do EUA a vários países da...

Corredores

Mo Farah é uma das grandes figuras do atletismo mundial: nas Olimpíadas de Londres (2012) e do Rio de Janeiro (2016) venceu as quatro medalhas de ouro nas provas de 5000 e 10 000 metros, a que se somam mais seis títulos mundiais e cinco europeus. Este palmarés extraordinário não só faz dele um dos mais bem sucedidos...

Exploração orquestrada

Lendo e ouvindo o que se vai difundindo, já se percebeu que por aí andam, de pá em riste, aqueles a quem foi atribuído o papel de aplanar o terreno, desde logo nessa árdua tarefa de disseminar a resignação bastante que garanta, sem grandes objecções ou resistências, que se tomem por bons e inevitáveis novos andamentos na...

O negócio da doença continua ao ataque

Os grandes potentados farmacêuticos continuam vorazes. Em 2021 enviaram ao G7 um relatório: «A missão dos 100 dias para dar resposta a futuras ameaças pandémicas» (12.06.2021). Seguiu-se (19.07.2022) a «Declaração de Berlim», que a Oxfam identificou como «um desavergonhado exercício de passa-culpas por parte de uma...