Segredo, mas pouco

Gustavo Carneiro

Numa recente aparição na televisão norte-americana, para discutir se a invasão do Capitólio a 6 de Janeiro de 2021 foi ou não uma tentativa de golpe de Donald Trump, John Bolton apresentou-se como alguém que «ajudou a planear golpes de Estado – não aqui [nos EUA], mas, sabe, noutros locais». Suportado no seu currículo, sentenciou que naquele caso não se tratou disso, até porque esta é uma tarefa que dá muito trabalho e exige cuidada preparação – nada, portanto, de que Trump fosse capaz.

Mas deixemos de lado a turbulenta política interna norte-americana e as zangas entre comadres e concentremo-nos na verdade revelada por aquele que, entre outras funções que desempenhou, foi Conselheiro de Segurança Nacional de Trump (2018-19), embaixador dos EUA nas Nações Unidas nomeado por George W. Bush (2005-06) e Procurador-geral Adjunto durante a administração Reagan (1985-89): os EUA organizam golpes de Estado por esse mundo fora. Não estamos propriamente perante um segredo muito bem guardado, é certo, mas vinda a confirmação de onde vem tem outro sabor.

Desafiado pelo jornalista a partilhar essa sua experiência, Bolton recusou-se a «entrar em detalhes», não sem revelar um dos golpes em que esteve envolvido e que acabou por falhar: o que, em 2019, tentou derrubar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e com ele a própria Revolução Bolivariana. Não será despropositado recordar que não só o próprio Bolton, como também outros responsáveis da administração norte-americana, vários governos (como o português) e a generalidade da comunicação social, trataram na altura os acontecimentos no país sul-americano como uma sublevação democrática ou algo semelhante. Afinal era golpe, e houve quem o tenha denunciado como tal.

Se a conversa sobre Trump e os acontecimentos do Capitólio foi longa, em matéria de golpes Bolton ficou-se por aqui. Ou quase: perante o desabafo do pivot, «sinto que há mais qualquer coisa que não me está a dizer», respondeu com um lacónico, e ao mesmo tempo tão significativo, «de certeza que há». Referia-se a algo mais sobre a Venezuela ou a outros golpes, talvez bem sucedidos, em que tenha estado envolvido?

Não ficou claro, mas talvez nem seja assim tão importante. Não é grande segredo que, com Bolton ou sem ele, o golpe – militar, institucional ou (aparentemente) popular – é prática antiga e recurso frequente do imperialismo norte-americano: na Bolívia (2019), no Brasil (2016 e 1964), na Ucrânia (2014 e 2004), no Paraguai (2012), na Líbia e na Síria (2011), nas Honduras (2009), na Sérvia (2000), no Chile (1973), na Grécia (1967), na Indonésia (1965), no Congo (1960), na Guatemala (1954), no Irão (1953), na Nicarágua (1934) – só para citar alguns poucos, muito poucos, exemplos.



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