Ficções
A UE está corroída por divisões profundas
O divórcio entre noticiários de regime e realidade é gritante. E já estamos habituados ao absurdo, na falta de escrúpulos das potências imperialistas. Basta lembrar Guaidó e a pilhagem dos bens da Venezuela, Irão e Afeganistão. Mas por vezes a realidade ultrapassa o imaginável. Veja-se a notícia de que, num esforço para declarar a Rússia insolvente (ou seja, caloteira), o Governo Biden quer proibir aquele país de pagar a sua dívida. Escreve o New York Times (24.5.22): «O Governo Biden vai começar a impedir a Rússia de pagar aos americanos detentores dos seus Títulos do Tesouro». Após as sanções decretadas em Fevereiro, uma isenção «permitia que Moscovo continuasse a pagar as suas dívidas». Mas o Ministério do Tesouro dos EUA decretou agora que essa isenção não será renovada. A Rússia tem divisas e quer pagar, mas Biden não deixa.
Os mercados financeiros são um instrumento de dominação das grandes potências imperialistas, em particular os EUA. As últimas semanas evidenciam (de novo) como esses instrumentos são políticos e não técnicos. A fúria dos EUA/UE perante a concorrência da Rússia deu azo às «sanções do inferno» anti-russas, expressão curiosamente já usada muito antes da intervenção na Ucrânia (Reuters, 2.8.18). O Ministro das Finanças francês, Le Maire, decretou uma «guerra económica e financeira total» contra a Rússia e prometeu «colapsar a sua economia» (Reuters, 1.3.22). A declaração durou umas horas, antes do ministro se retratar. A guerra económica prosseguiu. Mas os seus efeitos estão a ser o contrário do pretendido. O esquema do pagamento do gás russo com rublos, exigido por Moscovo, tornou-se realidade. A UE está corroída por divisões profundas em matéria de sanções petrolíferas. «Mais petróleo russo do que nunca antes se dirige para a China e a Índia» (Bloomberg, 26.5.22), tendo este último país mais que triplicado as importações desde o ano passado (Reuters, 30.5.22). O rublo, em vez de se afundar, reforçou-se face ao início da intervenção militar. A hiperinflação que desejavam para a Rússia não se materializa e corre o risco de (alimentada por processos anteriores à Ucrânia) se instalar do lado ocidental: «Inflação na eurozona bate recorde. Preços ao consumidor sobem 8,1% ao ano em Maio» (Bloomberg 31.5.22); «Energia na Europa encaminha-se para o seu ano mais caro por efeito das sanções» (Bloomberg, 31.5.22). A União Europeia, no seu afã de ser mais americana que a América parece determinada em destruir a sua economia. Mas é também a hegemonia do dólar que está em causa. Diz o Financial Times (7.4.22): «Ao utilizar desta forma o dólar como arma, os EUA e aliados arriscam-se a provocar uma reacção que poderá minar a divisa dos EUA […] As sanções contra o Banco Central russo poderão vir a ser vistas, não como uma nova e audaz forma de exercer pressão sobre um opositor, mas como o momento em que o domínio do dólar começou a declinar».
As velhas potências imperialistas descobrem que as armas que estão habituados a usar unilateralmente podem virar-se contra si. Talvez por isso, as notícias sobre a guerra na Ucrânia comecem a tornar-se mais realistas (Washington Post, 26.5.22; New York Times, 28.5.22; Kissinger em Davos).