Massacre
Sobre a putativa invasão da Ucrânia pela Rússia já quase tudo se disse: que seria total; ou então parcial; o número de vítimas – 50 mil, entre mortos e feridos; com a utilização de vídeos de falsas provocações; disfarçada de golpe de Estado; com data marcada – parece que era ontem – ou então não, só iminente; que Moscovo só por perfídia realiza exercícios militares; que o alargamento da NATO até às portas da Rússia, violando todos os acordos estabelecidos desde o fim da URSS, é inocente...
O resultado da histeria é o que seria de esperar. Segundo um inquério online divulgado dia 9, promovido pelo grupo de reflexão Conselho Europeu das Relações Externas em sete países – Alemanha, Finlândia, França, Itália, Polónia, Roménia e Suécia –, que em conjunto representam cerca de dois terços da população da União Europeia, a maioria acredita que a Rússia vai invadir a Ucrânia e defende que a NATO e a UE devem ajudar o governo ucraniano. Só na Finlândia há mais cépticos, mas ainda assim são mais de 40% os que acreditam na invasão.
Os responsáveis pelo estudo consideram que a crise Rússia-Ucrânia pode ser um «ponto de viragem para a segurança europeia», e acham que as respostas mostram uma mudança de sentimento entre os europeus, qualquer coisa como um «despertar geopolítico na Europa», com a maioria a confiar mais na NATO e na UE do que nos EUA.
Parafraseando a célebre máxima das estatísticas, «torturem os números que eles confessam!», é caso para dizer «massacrem os cidadãos que eles acreditam!».
O massacre aqui referido é, obviamente, o massacre mediático. De Berlim a Lisboa, de Paris a Varsóvia, de Norte a Sul e de Leste a Oeste, não haverá gato pingado que não tenha ouvido dizer que a Rússia vai invadir a Ucrânia. Não uma vez, nem duas, nem três, mas uma infinidade de vezes, de manhã à noite, em tudo quanto é órgão de comunicação social do sistema. Os preparativos para a guerra anunciada pelos EUA, NATO e UE levaram para o eventual cenário de confronto jornalistas à procura do seu momento de glória, que na ausência da notícia antecipam o que poderá ser, quando for, se for, especulando. A agência de notícias Bloomberg chegou mesmo a anunciar a «invasão». Foi lapso. A «notícia» está feita, só falta acontecer.
Sem pretender fazer futurologia, é quase impossível não estabelecer o paralelo entre esta crise Rússia-Ucrânia e o que se passou na véspera da invasão do Iraque pelos EUA. Também então a UE levou a cabo um inquérito online a propósito das famigeradas «armas de destruição massiva» de Saddam Hussein. O resultado é inesquecível: 99% dos participantes acreditavam na existência das terríveis armas... que afinal não existiam.
Coincidências... ou talvez não.