Tanta mentira em cima de nós

Vasco Cardoso

O conjunto de ideias difundidas no debate entre Rio e Coutrim não diferirá muito das teses que são sistematicamente defendidas pela generalidade dos comentadores, economistas e alguns jornalistas que hoje ocupam o fundamental do espaço mediático. Teses mil vezes repetidas que aspiram a tornar-se verdades universais mesmo que contrastem em absoluto com a realidade e que tiveram, naqueles 25 minutos, um momento de catarse.

Entre essas teses, está o dito peso do Estado. Diziam e concordavam ambos que «temos tanto Estado em cima de nós», «tanto socialismo em cima de nós» que é preciso libertar Portugal desse peso que limita a iniciativa privada, a criação de riqueza, o bem-estar e a felicidade do Povo. E sentenciaram: é preciso reduzir impostos (sobre o capital), privatizar empresas e sectores estratégicos que ainda resistem na esfera pública ou cortar na despesa, designadamente nas funções sociais do Estado, no emprego, nas reformas, nos salários e direitos dos trabalhadores.

Mas a mentira tem perna curta. Na verdade, segundo o Eurostat, não só o Estado português gasta menos do que a média da Zona Euro em despesas que vão desde a Saúde à Educação, passando pela proteção social, transportes, habitação ou cultura, como, em bom rigor, o essencial das políticas que são defendidas por estes cavalheiros diferem pouco, muito pouco, das opções que têm prevalecido nos governos ditos «socialistas» como é aquele que está em funções.

E é curioso que neste questionamento da despesa do Estado nunca apareçam os milhares de milhões de euros gastos para «salvar» bancos privados, ou para alimentar as PPP, ou para engordar negócios, como os da doença (e não da saúde), por conta do erário público. Pelo contrário, o que ouvimos é esses partidos, autênticos porta-vozes das classes dominantes, a exigirem, por exemplo, que as verbas do Plano de Recuperação e Resiliência se transformem num banquete para os grupos económicos. E claro está que sabem, oh se sabem, que o governo «socialista», uma vez mais não os desiludirá.




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