Escalada da crise na Ucrânia ameaça a paz mundial

A denominada nova guerra fria contra a Rússia, provocada pelos EUA, em que se insere o golpe de Estado na Ucrânia apoiado por Washington, pode ser potencialmente mais ameaçador do que uma nova guerra fria com a China. O alerta vem do movimento da paz dos EUA.

Movimento da Paz norte-americano contra «perigosa política belicista» dos EUA

Depois de criticar as corporações mediáticas norte-americanas por falsificarem notícias sobre uma alegada «invasão» da Ucrânia pela Rússia, o Conselho da Paz dos EUA (USPC, na sigla inglesa), em comunicado de 4 de Janeiro, relembra aspectos relevantes da evolução da situação na Ucrânia, que considera constituir uma «ameaça iminente à paz mundial».

Em Março de 2021, os EUA anunciaram 125 milhões de dólares de ajuda militar à Ucrânia, incluindo navios de patrulha costeiros e material de radar. Em Junho houve mais um pacote, de 150 milhões, este para a força aérea ucraniana, que incluiu a deslocação de «instrutores» norte-americanos para bases aéreas ucranianas.

Em Abril do ano findo, prossegue o USPC, o governo de Kiev anunciou uma ofensiva contra as regiões de Donetsk e Lugansk, no Donbass, e, em resposta, a Rússia concentrou, no seu território, tropas ao longo da sua fronteira oriental. Desde aí, a NATO intensificou a pressão e as provocações contra a Rússia.

No Verão, 30 mil soldados participaram na operação Defender Europe 2021, manobras militares lideradas pelos EUA desde o Báltico até ao Mar Negro. No mês passado, os EUA simularam bombardeamentos aéreos numa zona próxima do limite do espaço aéreo russo. Segundo a NATO, em 2021 os seus aviões aproximaram-se de aparelhos russos 290 vezes, a maior parte ao longo das fronteiras ocidentais da Rússia – ou seja, quase 80 por cento das 370 missões aéreas da NATO desse ano envolveram confrontos visuais com a força aérea russa.

Mas não é tudo: a 7 de Dezembro, a subsecretária de Estado norte-americana para Assuntos Políticos, Victoria Nuland, confirmou perante uma comissão do Senado que o governo dos EUA deu 2,4 mil milhões de dólares à Ucrânia, desde 2014, «em assistência securitária», dos quais 450 milhões entregues em 2021. Ao mesmo tempo, a diplomata asseguraria cinicamente a Moscovo que os EUA e a NATO ainda estavariam comprometidos com os acordos de Minsk II, que proíbem operações militares ofensivas no Donbass e preconizam ampla autonomia para Donetsk e Lugansk no seio da Ucrânia.

Entretanto, o secretário da Defesa, Lloyd Austin, quando se encontrou com o presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, em Kiev, reiterou o apoio dos EUA à futura admissão da Ucrânia na NATO, prometendo mais apoio militar.

Agir a tempo

O Conselho da Paz norte-americano lembra que, em Dezembro, a diplomacia russa tomou a iniciativa de apresentar aos EUA e à NATO propostas sobre garantias de segurança, uma vez que a instrumentalização da Ucrânia por parte dos EUA e da NATO ameaça ultrapassar as «linhas vermelhas» estabelecidas por Moscovo.

As preocupações da Rússia baseiam-se em factos: todas as promessas de Washington e da Aliança Atlântica de manter a NATO afastada das fronteiras russas foram quebradas ao longo destes 30 anos. Desde 1990, a NATO avançou para Leste. Nesse ano, com a anexação da República Democrática Alemã, toda a Alemanha tornou-se parte da NATO. Em 1999, juntaram-se-lhe a República Checa, a Hungria e a Polónia. Em 2004, Estónia, Letónia, Lituânia (ex-repúblicas soviéticas), Bulgária, Roménia, Eslováquia e Eslovénia entraram para a NATO. Em 2009, foi a vez da Albânia e da Croácia. Em 2017 de Montenegro. E, em 2020, da Macedónia do Norte.

A entrada da Ucrânia na NATO aproximaria ainda mais da Rússia as armas e tropas deste bloco político-militar agressivo. O presidente Vladimir Putin afirmou a propósito: «Um novo avanço da NATO para Leste é inaceitável. Ela está à porta da nossa casa. É excessiva a exigência de rejeitar mais sistemas de armas ofensivas perto da nossa casa?».

O Conselho da Paz dos EUA entende que, apesar das conversações a decorrer nestes dias, há «poderosas forças institucionais e económicas nos EUA» – o complexo militar industrial – «ansiosas por uma nova guerra fria com a Rússia», que lhes traria lucrativos contratos de venda de armas. Se o impasse armado entre o regime ucraniano e as forças rebeldes no Leste da Ucrânia se tornar – «por erro de cálculo ou propositadamente» – uma guerra convencional entre a Rússia e a NATO, o conflito pode transformar-se numa guerra nuclear, alerta.

Neste contexto, considera que as várias expressões do movimento da paz norte-americano devem agir, unidas, «antes que seja demasiado tarde», exigindo «a imediata desescalada desta grave crise provocada pela NATO» e pressionando a administração Biden a «mudar a sua perigosa política belicista contra a Rússia».




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