Cartazes

Gustavo Carneiro

É inquestionável o papel determinante que a comunicação, nas suas diferentes expressões, desempenha em política. Para esclarecer dúvidas, clarificar posições, conquistar apoios ou mobilizar (para o voto como para compromissos mais profundos), é essencial comunicare cada um o faz com os meios que tiver à sua disposição.

Questão mais complexa, e seguramente menos unânime, é a do teor das mensagens difundidas e a sua relação com a realidade. Servindo diferentes interesses e representando opções diversas, podem até veicular mentiras ou, pelo menos, meias-verdades. Os cartazes do PS para as eleições de Janeiro são pródigos nestas últimas.

Valorizando avanços concretizados desde 2015, os ditos cartazes atribuem-nos à acção governativa, incluindo aqueles que foram alcançados apesar das resistências do PS e até, não poucas vezes, da sua oposição. E nada dizem acerca das limitações impostas a essas medidas positivas por meio de cativações e de regulamentações criativas, que lhes toldaram o alcance e subverteram o significado.

Gaba-se o PS, num deles, de ter criado 500 mil empregos, feito indissociável – lembramos nós – de um crescimento económico possibilitado pela solução política aberta pelo PCP, na sequência das eleições de 2015, enquanto o PS felicitava a direita vencedora e se preparava para mais uma dança de cadeiras interna e o BE se comprazia com resultados próprios. Já sobre a qualidade destes novos empregos, nem uma palavra, sendo que ainda em Setembro o INE revelava que no primeiro semestre de 2021 oito em cada dez novos postos de trabalho foram criados com recurso a contratos a termo ou de prestação de serviços. Não será despropositado lembrar que nestes anos o PS só mexeu nas leis laborais para as agravar…

Noutro cartaz, em que se vangloria pelo aumento dos rendimentos das famílias, o PS não se refere à resistência que opôs aos vários aumentos extraordinários das reformas e pensões, ao modo como limitou sucessivas valorizações do salário mínimo (auferido hoje por 900 mil trabalhadores), à recusa em eliminar a caducidade da contratação colectiva e à passividade com que encarou a alta de preços de bens e serviços essenciais.

Que a comunicação política requer criatividade e capacidade de síntese ninguém nega. Mas exigia-se também algum rigor e honestidade, bem mais raros por aqueles lados.



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