Para onde vai a Alemanha?

Albano Nunes

O novo governo alemão dá sinais preocupantes

Na União Europeia do grande capital, em que a Alemanha desempenha papel preponderante, a formação de um novo governo após 16 anos da «grande coligação» formada pela CDU/CSU (direita) e pelo SPD (social-democrata), suscita natural expectativa. Perante a complexa e perigosa situação na Europa e no mundo, como vai comportar-se este governo formado por uma coligação inédita que envolve Verdes e Liberais e é presidida por um social-democrata?

O que se conhece do programa do novo governo, da sua composição e das primeiras declarações públicas, nomeadamente perante o Parlamento Federal, é preocupante. Perante as dificuldades e contradições da União Europeia (bem visíveis na última reunião do Conselho Europeu, nomeadamente em torno da crise energética), a tónica é a da acentuação das tendências mais negativas do processo de integração capitalista. Em defesa de «uma UE forte e soberana» reafirmam-se posições que visam o reforço do carácter supranacional federalista da UE com a generalização do voto por maioria qualificada em matérias que continuam a exigir a unanimidade e mesmo o relançamento de um processo constituinte, sempre sob o domínio das grandes potências. Sublinha-se o compromisso com a deriva militarista da União Europeia e a construção de um sistema militar «autónomo» mas estreitamente ligado com a NATO. Quando os EUA pressionam arrogantemente os seus aliados para acompanhar a sua escalada de confrontação com a China e com a Rússia, e faz à Alemanha a exigência de que abandone o gasoduto Nord Stream II construido em cooperação com a Rússia e não aplique o tratado de investimento assinado com a China, o novo Chanceler alemão e a sua ministra «verde» dos Negócios Estrangeiros, embora com nuances, dão inquietantes sinais de ceder à estratégia agressiva do imperialismo norte-americano. Numa conjuntura europeia carregada de perigos em resultado da cavalgada da NATO para Leste e do cerco militar à Rússia, o novo governo deste país no coração da Europa, pela voz do próprio chanceler demarca-se explicitamente da «Ostpolitik» ou seja de uma política de dialogo como a que, com Willy Brandt, conduziu então ao desanuviamento nas relações entre o Ocidente capitalista e o Leste socialista.

Os sinais que nos chegam da Alemanha não são bons e as interrogações são muitas. É certo que a par da retórica e da prática belicista do imperialismo há contactos e negociações. Xi Jiping e Olaf Scholz estiveram em contacto telefónico a semana passada e anuncia-se para o início do ano conversações entre os EUA e a Rússia. Veremos os resultados. Em qualquer caso o que vai decidir da evolução mundial no próximo ano e no futuro é a luta dos trabalhadores e dos povos pelo progresso social e a paz. As notícias que nos chegam do Chile, do Sudão e de outros países apontam o caminho.




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