Um lobo e um cordeiro, num armazém

António Santos

«Provas de fraude eleitoral generalizada». Foi com esta justificação que o Conselho Nacional de Relações do Trabalho (NLRB, na sigla inglesa) ordenou a repetição das eleições que, em Abril, se disputaram para o estabelecimento do primeiro sindicato num armazém da Amazon nos EUA. Da contagem dos votos, 738 contra 1798 num universo de 6000, saiu triunfante a vontade dos patrões no armazém de Bessemer, no Alabama, mas as denúncias, a que a decisão do NLRB veio dar razão na segunda-feira, não se fizeram esperar.

«A decisão de hoje confirma o que sempre dissemos: que a intimidação e interferência da Amazon impediu os trabalhadores de terem uma palavra a dizer sobre se querem ter um sindicato no seu local de trabalho», disse, em declarações à imprensa, Stuart Appelbaum, presidente do sindicato do sector, o RWDSU. «Os trabalhadores da Amazon merecem ter uma voz no seu trabalho e isso só é possível com um sindicato», concluiu.

Para o NLRB, ficou provado que, primeiro, a Amazon procurou evitar a votação ameaçando despedir 75 por cento dos trabalhadores. Depois, contratou um analista de inteligência para identificar os agitadores sindicais e montou um programa de espionagem online para infiltrar os grupos privados dos trabalhadores. Como se isso não bastasse, ainda colocou uma câmara dentro da tenda onde se fez a votação.

Frustrado que está o argumento da intimidação e esgotada a argumentação da fraude, restam ainda assim argumentos à Amazon que, mesmo na segunda-feira, fez saber que «como empresa, não acreditamos que os sindicatos sejam a melhor resposta para os nossos empregados. Embora tenhamos feito grandes progressos em remunerações e segurança, sabemos que há muitas coisas que podemos continuar a melhorar […] e é esse nisso que estamos focados»

Na luta entre as classes, os argumentos, e para esse efeito também a democracia, são essencialmente como a fábula do lobo e do cordeiro, escrita por Esopo há mais de 2500 anos e que, de forma resumida, passo a contar. Um cordeiro e um lobo bebiam água num ribeiro quando o canídeo resolve comer o ovino. Procurando uma justificação para a previamente decidida matança, o lobo acusa o cordeiro de sujar a água que o lobo bebia. Calmamente, o cordeiro explica que tal é impossível, uma vez que estava a beber mais abaixo no ribeiro e que a água não corre ribeiro acima. O lobo acusa então o cordeiro de ter dito mal dele há seis meses, acusação que o cordeiro contesta respondendo que há seis meses simplesmente não era nascido. Impacientado com o debate, o lobo deixa-se de conversas e devora o cordeiro.

Moral da história? Nunca deixes um bom argumento intrometer-se entre ti e uma boa refeição. A Amazon certamente não deixa.




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