O óbvio é relativo à classe

António Santos

O julgamento de Kyle Rittenhouse capturou a atenção da América. Do seu veredicto depende, mais do que a liberdade do jovem fascista de 18 anos, a liberdade de protestar. Nos dois pratos da balança pendem o valor da vida humana e o da propriedade.

Há um ano, Rittenhouse, armado com uma metralhadora AR-15, deslocou-se do seu Estado natal do Illinois até Kenosha, no Wisconsin, com o intuito declarado de proteger as lojas locais dos manifestantes anti-racistas. Acabou por matar duas pessoas e ferir uma terceira.

Outro julgamento acabava de começar: Rusten Sheskey, um polícia da cidade, era acusado de alvejar um homem negro, desarmado, com sete tiros, deixando-o tetraplégico e a lutar pela vida. No mês passado, Sheskey foi absolvido de todas as acusações e está de volta ao serviço. Teme-se agora que o mesmo sistema de justiça absolva também o assassino.

Ao ouvido do fascismo

Na terça-feira, o júri inaugurou as deliberações num contexto favorável à absolvição do fascista. O juiz, Bruce Schroeder, que já deixou cair a acusação de posse de arma ilegal, foi capaz de transformar o julgamento num violento espectáculo televisivo em que a acusação é a principal acusada.

Mas o mais surpreendente é a complexidade jurídica e processual que o capitalismo escolhe dar àquilo que parece por demais evidente. Ninguém, nem o próprio assassino fascista, nega a autoria dos dois homicídios. Ninguém põe em causa que o arguido já tinha ameaçado matar manifestantes anti-racistas. É também consensual que a razão dos homicídios foi a alegada vontade dos vigilantes voluntários de proteger as lojas. O que já não sabe com tanta certeza o mesmo sistema judicial que declarou Sheskey inocente é se Rittenhouse cometeu algum crime.

Se o sistema judicial dos EUA deixar Rittenhouse sair do tribunal em liberdade, estará a segredar uma mensagem sinistra ao ouvido de todos os fascistas dos EUA: podem agarrar em armas e matar manifestantes porque a propriedade privada vale mais do que a vida humana.




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