Qual bloco?
Todos conhecerão a metáfora da família que comeu dois frangos e da família vizinha que não comeu frango nenhum, mas que, em média, comeu um frango cada uma.
Lembrei-me dela porque, no rescaldo das eleições, desenvolvem-se as mais diversas teorias e elucubrações seja para justificar resultados, positivos ou negativos, seja para vislumbrar tendências, mesmo onde elas não existam, seja para, à falta de melhor, encontrar caminhos para sacudir o peso de factos que, quase sempre sem excepção, não são agradáveis aos teóricos e elucubradores.
Nas eleições no concelho de Lisboa, as forças que governaram a cidade nos últimos quatro anos, PS e BE, perderam votos e mandatos. E o PS perdeu a Câmara.
Na análise destes resultados, na tentativa de sacudir responsabilidades próprias, resistindo a reconhecer que uma parte dos seus resultados se explicará pelas opções que assumiram na gestão da cidade, uns vêm dizer que a culpa do seu resultado, pasme-se, é da CDU e outros, tentando minimizar os estragos, põem um dirigente a dizer que «o bloco constituído entre o BE e a CDU manteve-se estável, com um ligeira subida da CDU e uma ligeira quebra do BE».
A José Gusmão, o divertido autor de tal prosa, cabe fazer duas perguntas.
A primeira, a de saber se acha mesmo que um aumento de 5% na massa eleitoral, num quadro de aumento da abstenção é assim tão ligeiro e se é comparável com um recuo de 16%, que foi o que aconteceu ao BE.
Mas a outra é a que «bloco» se refere o dirigente bloquista.
É que nos últimos quatro anos, BE e CDU estiveram em posições bem diferentes, com os primeiros a participar na maioria que suportou o PS na Câmara e que governou Lisboa, ao passo que a CDU esteve todos os dias no combate contra um rumo que retirou aos lisboetas o direito à sua cidade.
Talvez JG estivesse a pensar na velha metáfora dos frangos.
Só que, neste caso, o BE não apenas não comeu o frango, como ainda atirou fora a parte que lhe cabia.