Dois pesos, duas medidas

Filipe Diniz

Os grandes media e a ONU derramam lágrimas de crocodilo sobre a triste sina das mulheres afegãs. Sobre outras tragédias, são mais esquecidos.

Em 2017 a Comissão Económica e Social para a Ásia Ocidental (CESPAO) publicou um relatório sobre o apartheid em Israel. Ao que parece por pressão directa de Trump e de Israel sobre Guterres, a ONU desvinculou-se dele. Num gesto de grande dignidade, a directora do CESPAO, Rima Khalaf, recusou-se a retirá-lo e demitiu-se do seu cargo na ONU. O relatório foi varrido para baixo do tapete.

Mas a caracterização do apartheid sionista acaba de ressurgir num recente relatório da insuspeita Human Rights Watch: «a política geral do governo israelita para manter a dominação dos judeus israelitas e os graves abusos contra os palestinianos que vivem em território ocupado, incluindo Jerusalém Leste» configura um regime de apartheid e este constitui, à luz do direito internacional, um crime contra a humanidade.

Foi apresentado o relatório anual do Comité sobre o Exercício dos Inalienáveis Direitos do Povo Palestiniano: «a colonização e anexação de terra Palestiniana, políticas de apartheid contra Palestinianos, e a privação de todos os seus direitos humanos fundamentais» […] «reflectem-se nas graves condições humanitárias da Faixa de Gaza». Verifica-se uma «escalada na intensidade dos crimes que vêm sendo cometidos por Israel e pelos colonos extremistas» […] «o assassínio de crianças, em particular, tornou-se uma prática rotineira por parte das forças de ocupação».

Contrastam com a vergonhosa ocultação de 2017 as recentes declarações do Secretário-Geral da ONU sobre o Afeganistão. Ali, quer que «o povo afegão viva em paz; que cesse o dramático sofrimento que existiu no passado; que o Governo do Afeganistão seja um governo inclusivo, representando os diferentes sectores da população afegã; que sejam respeitados os direitos humanos básicos, em particular os das mulheres e das crianças».

Em 29 de Novembro comemora-se o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano, seguido da reunião plenária da Assembleia Geral sobre a questão da Palestina. Que terá Guterres aí a dizer?

 



Mais artigos de: Opinião

Eleições na Alemanha

Independentemente de outras necessárias considerações e possíveis desenvolvimentos ulteriores, os resultados das eleições na Alemanha reafirmam a tendência de redução do peso conjunto eleitoral da CDU/CSU e do SPD, que têm governado este país há décadas, incluindo através da denominada «grande coligação» (2005-09,...

Qual bloco?

Todos conhecerão a metáfora da família que comeu dois frangos e da família vizinha que não comeu frango nenhum, mas que, em média, comeu um frango cada uma. Lembrei-me dela porque, no rescaldo das eleições, desenvolvem-se as mais diversas teorias e elucubrações seja para justificar resultados, positivos ou negativos,...

O preconceito explicado por si próprio

Muitas vezes, os preconceituosos não se consideram preconceituosos. «Até tenho um amigo que é», como diz a velha piada. Mas o preconceito vem sempre ao de cima. Durante a campanha eleitoral, a SIC e o Expresso destacaram-se no preconceito contra a CDU. As peças pré-fabricadas, encenadas, os remoques azedos, a ortodoxia...

O discurso e o resto

Joe Biden discursou, na semana passada, na abertura da 76.ª sessão da Assembleia-geral das Nações Unidas, pela primeira vez na qualidade de presidente dos Estados Unidos da América. Os média do costume gabaram-lhe o tom diplomático (tão mais notório se comparado com a rudeza do seu antecessor) e as referências ao clima,...