Não há fumo sem fogo
Não se podendo dar por certo, em regra bem pelo contrário, o que a comunicação social estampa como notícia, também é verdade que avistando-se fumo é alta a probabilidade de andar por aí fogo.
O que aparece veiculado sobre uma relação causa-efeito de troca de compromissos entre Governo e patronato em matéria de concertação social dá que pensar. Ainda sem desmentido, e com sinalizações diversas que concorrem para o credibilizar, o acordo agora subscrito que juntou o Governo do PS, representantes do grande capital e os apêndices sindicais da UGT sobre «formação», ao abrigo do qual mais de cinco mil milhões de euros caminharão para os bolsos do capital, terá por base um compromisso do Governo de manter inalterados os instrumentos que assegurem a exploração e a fragilização dos direitos dos trabalhadores.
Não sendo visível o incêndio dir-se-ia que o fumo já detectável confirmará o sinistro. As declarações de deputados do PS garantindo que os tímidos passos dados por esse partido com a aprovação na generalidade de projectos do PCP para reduzir a precariedade, limitar o período experimental ou a renovação de contratos a prazo não terão sequência, devem ser lidas neste quadro como selo de garantia lavrado para segurança dos interesses do grande capital.
Não querendo precipitar a antecipação definitiva de factos o PS estará decidido, sem surpresa e uma vez mais, a optar pela sua submissão aos interesses do capital monopolista. Da narrativa que rodeia estes episódios há quem tenda a apresentar esta atitude do Governo a um episódio determinado por cedência à chantagem do capital. Não vale a pena esse exercício de busca de desculpabilizações ou atenuantes. Como se sabe, não são precisas ameaças para o PS trilhar, sem precisar de ser empurrado para aí, o caminho que melhor conhece. Donde, basta o capital não se impacientar porque em última instância são sempre os seus interesses que terão lugar na estação mais próxima.