Duas ou três coisas

Carlos Gonçalves

A ofensiva da direita não vai de férias, já não há a “silly season” que vivia da escassez mediática (e política) da intervenção da direita dos interesses no hiato de verão do Parlamento e da ocultação perversa da realidade dos problemas do País e da luta de sempre dos trabalhadores e do povo. Hoje, a tempo inteiro, o capital financeiro cavalga a crise, sanitária, económica e social, para acelerar concentração, centralização e poder – político, económico, mediático, ideológico – e utiliza as instituições e forças políticas que comanda, antigas ou sucedâneas, e os media dominantes para agravar o rumo da política de direita, de exploração, declínio e submissão.

A ofensiva tem dado visibilidade à «denúncia da corrupção», até parece que PSD e barões romperam com a história e os inúmeros bandidos das suas fileiras e se converteram ao interesse público. Mas, na verdade a “narrativa” é sempre a de separar o indivíduo corrupto das suas circunstâncias, inocentar o capitalismo, as privatizações, os bancos, os governos, a política de direita, diminuir o Estado e o sector público, legitimar os próximos negócios, controlar as magistraturas, semear o medo e o ódio, alargar as posições e forças reaccionárias.

Avança a subversão do regime democrático, enredando ainda mais o PS no favorecimento dos grandes interesses, na submissão à UE e ao Imperialismo, contra os trabalhadores, os direitos, a soberania, com o Presidente Sousa a empurrar o que chama de «alternativa», ao Governo e à correlação de forças, com mais do mesmo na política de direita, “protagonismo” e “força aos privados” - “viva a luta dos patrões”.

E com o PSD a dar o passo para «juntar vontades», do CDS, Ch, IL e necessariamente do PS, para abrir o processo de revisão constitucional – entraves à liberdade, acesso a metadados, menos representatividade democrática, fim da «carga ideológica» da Revolução de Abril. E com o PS, como no passado, a rejeitar à partida quase tudo o que poderá negociar e aceitar à chegada.

Destas duas ou três coisas resultam grandes dificuldades e exigências para os trabalhadores, o povo e o País. E a luta confirma-se como o único caminho, de determinação, confiança e reforço do Partido, para uma alternativa, autêntica e efectiva, patriótica e de esquerda.

 



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