Incorporação

João Frazão

O “Projecto Incorporar”, em que uma associação, seguramente com a melhor das intenções, procura aquilo que apelida de emprego à medida para pessoas desempregadas, foi-nos apresentado como inovador.

Com esta iniciativa, a instituição procura substituir-se às entidades oficiais, designadamente ao Instituto de Emprego, a quem deveria caber o papel de promover o emprego, em particular nos casos mais difíceis.

Iniciativa louvável, particularmente num quadro em que, em consequência do aproveitamento que o capital está a fazer da epidemia, cresce o número dos que ficam sem emprego e sem perspectivas de conseguir um novo emprego e, quantas vezes sem fonte de rendimento ao fim de algum tempo.

Tomámos conhecimento do projecto pela televisão, que o promoveu como moderno, inovador e de um altruísmo sincero.

Sucede que, a meio da notícia nos dão indicações mais precisas sobre o projecto.

Afinal os empregos à medida implicam contratos mensais, para tarefas que são, todas elas, permanentes.

Isto para além da informação de que uma trabalhadora, que ao fim-de-semana tem de preparar 80 refeições sozinha, tem ainda de fazer limpezas diversas.

A resposta aos problemas do emprego não se encontram em mais precariedade.

O que é preciso é que a cada posto de trabalho permanente corresponda um contrato de trabalho efectivo.

E, como se percebeu pelas várias imagens que foram exibidas na reportagem, quer as que já referi, quer as de um jovem a operar sozinho numa máquina numa empresa metalúrgica ou um outro trabalhador a concretizar as tarefas administrativas que lhe foram confiadas, nem se pode dizer que precisem de tempo para perceber se eles servem para as tarefas. Eles aí estão, como peixes na água, a dar conta do recado.

Chegados aqui, resta dizer que o capital e os seus sucedâneos ganham sempre, em todos os carrinhos.

Quando apareceu a epidemia, usaram esse pretexto para despedir, com a complacência e mesmo cumplicidade do Governo e dos que na Assembleia da República – PS, PSD, CDS, IL, Chega – impediram que fosse aprovada legislação proposta pelo PCP para evitar tais despedimentos.

Ganham agora, com mão de obra barata, precária, disposta a deixar a camisola por uma experiência que querem tornar permanente. E ainda há quem queira que vejamos aqui filantropia.

São muito bons a incorporar.



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