Internacional «Socialista»

Filipe Diniz

A história da II Internacional é indelevelmente marcada pela traição aos povos na I Guerra Mundial. Passado mais de um século, a Internacional «Socialista» – «refundada» em 1958 - é mais um de um largo rol de entidades políticas cuja designação pouco ou nada tem a ver com a sua natureza e objectivos.

A lista de partidos que a integram é particularmente heterogénea – «radicais», «liberais», «social-democratas» - e por vezes não é fácil descortinar o que possam ter em comum. Há todavia alguns traços a reter: na América Latina sobretudo, não haver processo progressista que a IS não tenha aberta e militantemente hostilizado em algum momento, desde o Chile de Allende à Venezuela bolivariana ou à Cuba revolucionária; e, nas últimas décadas o empenho nas múltiplas «revoluções coloridas» que o imperialismo tem tentado ou concretizado.

Trata-se de um contributo precioso: fornece ao imperialismo argumentação e palavras de ordem de «democracia» e «liberdade» sem as quais ficaria politicamente mais exposto. Que tais revoluções» tenham colocado fascistas no poder, como na Ucrânia, não representa para a IS grande problema, nem justifica veementes tomadas de posição como as que toma em relação a acontecimentos na América Latina.

Na Venezuela o seu integrante é o partido de Guaidó, Voluntad Popular. Embora se trate de um partido de extrema-direita, o nome é capaz de vir de outro lado e de ser bem elucidativo: é o mesmo da russa народная воля (narodnaya volya), organização anarquista adepta do terrorismo como meio de acção. É o partido de outro herói da IS, Freddy Guevara, acusado pelo governo do seu país de «vinculação com grupos extremistas e paramilitares associados ao governo colombiano». A acusação liga-o aos actos de violência de 7 e 8 de Julho em Caracas – de que resultaram mortos entre paramilitares, forças da ordem e civis - e as comunicações que lhe apreendeu provam-no. A IS protesta pela detenção deste terrorista. Dirige-se arrogantemente ao legítimo governo venezuelano mencionando o «presidente em exercício» Guaidó. Consegue ser pior do que a própria UE, que desde 7 de Janeiro de 2021 deixou de reconhecer esse fantoche.

O MNE Santos Silva é um fiel representante desta IS.



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