Israel: «novo» governo? velha política

Ângelo Alves

Só a resistência e a solidariedade derrotarão o sionismo

A situação política em Israel vive momentos de instabilidade. Tal facto não é separável do levantamento do povo palestiniano e da sua notável resistência aos recentes crimes de Israel. É que por mais que se esconda, existe um elefante na sala: não obstante a dura realidade das centenas de mortos e milhares de feridos palestinianos causados pela agressão sionista, o facto é que Israel e o seu ainda primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sofreram uma derrota e tiveram de recuar face à resistência e levantamento nacional do povo palestiniano.

E se isso – fruto de uma renovada capacidade de articulação das diferentes componentes da resistência palestiniana e de um reforçado e alargado movimento de solidariedade com a Palestina em todo o mundo – já é uma alteração qualitativa na questão palestiniana, com evidentes reflexos políticos, o facto de a revolta e resistência ter tido uma importantíssima expressão na comunidade palestiniana dos territórios ocupados por Israel após 1948, impacta directamente na situação política «interna» de Israel.

O principal facto político que deve presidir à análise da evolução política em Israel é que após os recentes acontecimentos, a manutenção de Netanyahu no poder poder-se-á transformar num problema para vários dos sectores sionistas – nomeadamente aqueles ligados a poderosos interesses económicos de Israel em várias partes do mundo – e também para os seus mais directos apoiantes, desde logo os EUA e a Administração Biden, que necessita de «mostrar serviço» e mudar algo para manter a sua política de apoio incondicional aos crimes de Israel.

É neste contexto que surge um acordo político aparentemente contra natura, mas que no fundo não o é tanto assim. Se a frágil maioria de 61 membros do Knesset (em 120) votar favoravelmente uma moção de confiança ao novo governo, as forças políticas que dividirão, em meios mandatos, os cargos de primeiro-ministro e ministro das Relações Externas são o Yamina – partido nacionalista de extrema-direita que se opõe formalmente ao reconhecimento do Estado da Palestina e cujo líder, Naftali Bennett foi presidente do Yesha Council, o ultra-reaccionário conselho dos colonos israelitas; e o Yet Ashid de Yair Lapid – partido que já integrou um dos governos de Netanyahu e que na aliança Azul e Branco defendeu Jerusalém como «capital indivisível de Israel» e a «soberania de Israel sobre o Vale do Jordão». A estes juntam-se vários outros partidos, incluindo o Partido Trabalhista, que ao longo de décadas têm sustentado a política sionista e ainda quatro deputados da Lista Árabe.

Não sabemos se tal governo verá a luz do dia. Mas em caso positivo isso não só não significará uma mudança na política de Israel, como poderá inflamar ainda mais os sectores radicais sionistas, que se preparam para novas provocações. É por isso que as forças progressistas israelitas – desde logo o Partido Comunista de Israel – já anunciaram que não votarão favoravelmente um governo que pretende, sem Netanyahu, dar seguimento à sua política e abrir campo a novas manobras de encenação em torno de falsas «negociações» conduzidas a partir de Washington. Política que só a unidade das forças palestinianas na resistência e luta pelos seus direitos, a par com um forte movimento de solidariedade com a causa palestiniana, poderá verdadeiramente derrotar.




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