Novo golpe no Mali, ingerências e guerras

Carlos Lopes Pereira

O segundo golpe de Estado militar no Mali em nove meses é resultado da complexa situação securitária, política e económica no país e na faixa do Sahel, em guerra há uma década.

Por um lado, alastram os protestos anti-governamentais contra a degradação das condições de vida das populações e, por outro, intensificam-se os confrontos violentos com grupos armados jihadistas, pretexto para a forte presença de tropas estrangeiras na região – francesas, norte-americanas, da União Europeia e das Nações Unidas. Só no ano passado, morreram mais de seis mil pessoas no Mali e países vizinhos, vítimas da guerra.

No dia 24 de Maio, coronéis malianos – que em Agosto de 2020 tinham derrubado o governo de Ibrahim Boubacar Keita – prenderam e demitiram as duas principais figuras do processo de transição, o presidente Bah Ndaw e o primeiro-ministro Moktar Ouane, apontados como «protegidos» da França. O líder dos golpistas, coronel Assimi Goita, assumiu o poder e proclamou-se chefe do Estado.

Este segundo golpe foi alvo de condenação – da União Africana às Nações Unidas, passando pela França e pelos Estados Unidos da América – e parece ter, para já, provocado divergências entre Bamako e os seus aliados ocidentais.

O presidente Emmanuel Macron considerou o golpe «inaceitável», prometeu sanções contra os responsáveis, garantiu que a França «não ficará ao lado de um país onde não existe legitimidade democrática nem de transição» e ameaçou retirar as tropas francesas enviadas para o Sahel a pretexto do combate contra o «terrorismo». A reacção francesa ao golpe no Mali é bem diferente da atitude condescendente de Paris face aos acontecimentos de Abril no Chade, onde, após a morte do presidente Idriss Déby Itno, um Conselho Militar de Transição assumiu o poder, com a bênção de Macron.

Os EUA, que também se apressaram a condenar o novo golpe no Mali, suspenderam a «assistência de segurança», ou seja, o apoio militar às forças armadas malianas. Washington avalia sanções contra «os líderes políticos e militares que impedem a transição do Mali para um governo democrático dirigido por civis».

De igual modo, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) condenou o golpe dos coronéis malianos. Reunida em Acra, no Gana, a cimeira da organização decidiu, «após longas discussões», suspender o Mali das suas instituições.

Os chefes de Estado dos 15 países membros da Cedeao reclamam a nomeação imediata de um novo primeiro-ministro saído da sociedade civil e exigem a libertação dos dirigentes derrubados, mantidos em residência fixa. Reafirmam a necessidade da transição do poder para os civis, através de eleições em 2022.

Os observadores da complexa conjuntura maliana notam, contudo, que a Cedeao não se pronunciou sobre a designação de Assimi Goita como presidente, o que parece indicar que os países da África Ocidental poderão vir a reconhecer em breve o novo poder no Mali.

Seja como for, o agravamento da situação no Sahel – de que os golpes militares em N’Djamena e em Bamako são expressão – evidencia que os problemas dos povos, em África como em todo o mundo, não se resolvem com ingerências estrangeiras e guerras mas antes com paz e soberania, que propiciam o desenvolvimento.

 



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