Liberalíssimos

Manuel Gouveia

A proposta vem da Iniciativa Liberal. Podia ser de PS, PSD, CDS ou CH. Mas pegámos na da IL por ser quem mais estridentemente usa o discurso demagogo neoliberal.

O embrulho, como costume, é engraçado. Uma sigla e um título fixe – MOA, Metro Oeste Atlântico – um mapa eficaz com estações e percursos. Tudo a cores. Destes «estudos» e destas promessas veremos centenas até às autárquicas.

A razão por que trazemos aqui este pedaço de publicidade da IL é por causa da clara explicação de como pretendem financiar a coisa: o Estado (Autarquias, Orçamento de Estado, UE ) investe 850 milhões de euros na infraestrutura, e depois, um capitalista investe na compra de 42 eléctricos (cerca de 65 milhões, adiantamos nós) e explora a rede através de uma concessão.

Ou seja, com um investimento inferior a 8% do total necessário (e para o qual ainda se candidatará a apoios públicos no âmbito da descarbonização), um capitalista ficaria com o direito de explorar uma infraestrutura pública. E claro, no contrato de concessão o Estado teria de assegurar o nível mínimo de receita para garantir lucros ao capitalista, como acontece em todas as PPP.

É caso para agradecer à IL. Mais uma cristalina demonstração do que é este neoliberalismo.

O mecanismo que a UE quer impor a Portugal no que respeita à ferrovia no quadro do PRR é exactamente o mesmo. O País investe na Linha Ferroviária para Alta Velocidade entre Lisboa, Porto e Madrid, mas não compra comboios, e muito menos fabrica comboios. Esses serão colocados cá pelas multinacionais que ficarão a explorar a infraestrutura ferroviária. Tudo em nome da concorrência, do funcionamento do mercado e de outros dogmas neoliberais. E claro, o Governo português submeteu-se e submetendo-se submeteu o interesse nacional.

Mas não foi sempre assim que as potências imperialistas agiram junto das suas colónias? Emprestando o dinheiro condicionalmente, vendendo a tecnologia e os equipamentos, impondo a não existência de barreiras à intervenção das suas empresas, corrompendo, impondo-lhes um modelo produtivo dependente? No fundo, criando a dependência e a dívida e assegurando o retorno do capital e rendas fixas?




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